
O que vês desse lado é uma afirmação.
+ http://patriciaisabelricardo.com/mitologia




Feldafing (Baviera), 17 de Agosto 1994
Meu Caríssimo José,
Cá estamos, desde há quinze dias, nesta Alemanha de sonhos e ex-pesadelos. O sonho está em frente à janela, e o lago 1 onde se afogou o sonhador wagneriano mais conhecido por Luís de Baviera. O ex-pesadelo, esperemo-lo, fica a uns trinta kilómetros d'aqui e chamou-se, chama-se, Dachau.
(...)
Mas como tu já escandalizas por fora talvez faças bem em não forçar a dose, escandalizando por dentro.
(...)
A propósito de 'Diário'. Estou aqui, em princípio, com a obrigação moral - via Annie e amigos - de me "diarizar", ou antes, de apanhar os cacos de mim mesmo que ao longo dos anos - e seriam vida se a minha o fosse - fui deixando por agendas e caderninhos. Mas não é certo que leve esta cruzada por contra de outrem, que me quer mais do que a mim mesmo, a bom porto.
(...)
Remexer em cinzas de há meio século ou apenas dez anos, é ficar com os dedos, ou mais certeiramente, com a boca a saber a cinza. E o mais chato é, sobretudo, verificar, como certas pessoas - nós todos? - glosamos sem nos darmos conta, como se os acontecimentos exteriores, mesmo os importantes, nada de especial alterassem, as mesmas obsessões, os mesmos sonhos, ilusões, decepções. E o pior é descobrir que até os termos, as fórmulas, são, tantas vezes, os mesmos. Como invejo os criadores, os que ficcionam realmente a realidade, como tu, que em vez de recolher, com a maior bondade do mundo, apenas a fixam (?) de si mesmos. Não insisto para não me desencorajar mais do que já é meu hábito. E para não continuar uma música que sei de cor e se parece muito com um 'alibi'.
(...)
Eduardo
-
Lanzarote, 12 de Setembro de 1994
Meu querido Eduardo,
Cansei-me de dizer que os 'Cadernos' não aspiravam a mais que a fixar a passagem do tempo: podiam ser, por exemplo, uma gravação de vídeo, mas sendo eu tão pouco dotado para as artes da imagem (uma máquina fotográfica terá que ser automática se quiser entender-se comigo), e tendo algum jeito para a escrita, pareceu-me que não iria infringir nenhuma regra de comunicação escrevendo um diário sem mais pretensão que essa mesma: reter os dias, fotografá-los (em todo o caso não automaticamente), para poder voltar a eles quando me apetecesse e ter assim a ilusão de haver vivido muito. E essa é realmente a impressão que recebo quando releio o que escrevi então e vou escrevendo agora: que a memória entregue a si mesma, não retém quase nada do que acontece. E nem sequer vale a pena argumentar que retém quase nada do que mais importa, porque bem sabemos que não é assim.
(...)
Eu sou o serralheiro mecânico que quis ser escritor e conseguiu sê-lo. Não te esqueças disso nunca. Quando alguém um dia disse a Mário Soares que o Memorial era um bom livro, ele perguntou: 'E como é que o Saramago escreveu um livro bom?' Sim, como raio é que eu poderia escrever um bom livro, mesmo bom não sendo? O nó cego da minha relação com os intelectuais portugueses é aqui que está, querido Eduardo. E não falo de ti, crê-me. Não confundo um sentido crítico, que se expressa no momento certo, com animadas versões latentes ou manifestas que não escolhem ocasiões nem pretextos.
Fico feliz por teres posto finalmente mãos num trabalho de que todos estávamos à espera. Não te invejo a sorte. Vais sofrer muito em cima desses papéis. Mas deixa lá, é para o nosso bem.
(...)
José
