Por falar em álbuns visuais.
Z-sides, de Tom Rosenthal
Fenn, de Tom Rosenthal
recolhas importantes

© Ana Gil
Dêem-me duas velhinhas, eu dou-vos o universo (2013)
Recolhas musicais portuguesas por Tiago Pereira
O disco existia para download gratuito neste link, infelizmente já não.
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grafonola,
neighborhood
a passagem do tempo, no início de março
Um tique-taque lá muito ao longe, apenas com o volume muito alto.
exorcizar, pt 4
It has to start with the art. The songs had to touch people initially, and mean something, for anything to work at all. The art, not the artist, is what fundamentally draws the net into being. The net was then tightened and strengthened by a collection of interactions and exchanges I've had, personally, whether in live venues or online, with members of my community.
(...)
The whole point of being an artist, I thought, was to be connected to people.
em The Art of Asking, de Amanda Palmer
(...)
The whole point of being an artist, I thought, was to be connected to people.
em The Art of Asking, de Amanda Palmer
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biblioteca
exorcizar, pt 3
The spirit of an artist's gifts can awake our own.
In my darkness hours, I still go to my secret stash of medicine-music to comfort me, like a familiar childhood blanket, and cocoon myself in the songs of Kimya Dawson, Leonard Cohen, or Robyn Hitchcock, who seem to be expressing some inexpressible thing inside of me. And listening to those songs performed live, in concert, and sharing that blanket feeling with a crowd of strangers, gives me a feeling of humanhood that I don't often get to experience; it's the closest thing I Have to church.
When the gift circulates, we feel the very essence of art and life not just in the words and songs, but also in our deep desire to share them with one another.
em The Art of Asking, de Amanda Palmer
In my darkness hours, I still go to my secret stash of medicine-music to comfort me, like a familiar childhood blanket, and cocoon myself in the songs of Kimya Dawson, Leonard Cohen, or Robyn Hitchcock, who seem to be expressing some inexpressible thing inside of me. And listening to those songs performed live, in concert, and sharing that blanket feeling with a crowd of strangers, gives me a feeling of humanhood that I don't often get to experience; it's the closest thing I Have to church.
When the gift circulates, we feel the very essence of art and life not just in the words and songs, but also in our deep desire to share them with one another.
em The Art of Asking, de Amanda Palmer
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exorcizar, pt 2
I've played in every venue imaginable over the last fifteen years, in fancy old theaters and shitty sports bars, in secret underground piano bars with capacities of forty people, to crowds of thousands in sports arena.
But I maintain: no performing-art form can ever achieve the condition of The Eight-Foot Bride.
It was like breaking down a compound into its essential elements, then down to an atom, then down to an irreducible proton.
Such profound encounters - like the deeply moving exchanges I'd have with broken people who seemed to have found some sort of salvation in the accidental, beautiful moment of connection with a stranger painted white on a street corner - cannot happen on a safe stage with a curtain. Magical things can happen there, but not this. The moment of being able to say, unaccompained by narrative:
«Thank you... I see you.»
(...)
It cannot get any simpler than a painted person on a box, a living human question mark, asking:
em The Art of Asking, de Amanda Palmer
But I maintain: no performing-art form can ever achieve the condition of The Eight-Foot Bride.
It was like breaking down a compound into its essential elements, then down to an atom, then down to an irreducible proton.
Such profound encounters - like the deeply moving exchanges I'd have with broken people who seemed to have found some sort of salvation in the accidental, beautiful moment of connection with a stranger painted white on a street corner - cannot happen on a safe stage with a curtain. Magical things can happen there, but not this. The moment of being able to say, unaccompained by narrative:
«Thank you... I see you.»
(...)
It cannot get any simpler than a painted person on a box, a living human question mark, asking:
«Love?»
And a passing stranger, rattled out of the rhythm of a mundane existence, answering:
«Yes.
Love.»
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exorcizar
Over the years, though, I got used to it, and instead of taking it personally, I began to understand:
Sometimes people just don't want the flower.
Sometimes you have to let them walk away.
em The Art of Asking, de Amanda Palmer
Sometimes people just don't want the flower.
Sometimes you have to let them walk away.
em The Art of Asking, de Amanda Palmer
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biblioteca
piquenique mpagdp
[Último piquenique em Monforte]
Piquenique Musical MPAGDP
Viana do Castelo, 7 de Abril de 2019
Para um modelo social diferente, baseado no sentir, na partilha e na escuta. Não ouvir, mas escutar, sentir a natureza, os passarinhos. O que se propõe é do mais simples que há, cada um traz o seu saber e a sua alimentação e junta-se aos demais. Sem hierarquias e sem palcos, todos se juntam para cantar e dançar o que lhes apetecer no momento. Partilhando a sua comida e a sua música. Sem sistema de som, sem produção. Apenas sentindo o mundo à sua volta e fruindo com o outro. Aprendendo coisas de outras terras, provando outros sabores. Os tempos que vivemos são difíceis, a sociedade está demasiado fragmentada, é preciso tolerância, é preciso criar novos modelos para se poder estar. Este é apenas um deles, porque mais do que organizar um piquenique, o que se quer mesmo aqui, é propor um modelo social diferente. Por isso quando vos convidamos a vir, estamos a dizer que todos podemos fazer um mundo melhor, só depende de nós, escreveu o Tiago Pereira.
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dos vídeos,
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> relicário

Agnès Varda with badges for both Jean-Luc Godard and François Truffaut.
Autor desconhecido.
*roubei ao mubi
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agnès varda,
relicário
j
Jakuchu - The Divine Colors (2016), Yuriko Kumagai e Chihiro Tajima.
A rtp2 e o serviço público, agora.
A rtp2 e o serviço público, agora.
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dos documentários
boa noite, marujos
Por falar nisso, patenteio já aqui a minha ideia de fotografar as quarenta e duas guardas de passagem de nível, ainda existentes, em Portugal.
Tenho dito.
Tenho dito.
há dias
Tenho que tirar o chapéu à rtp1, pelo segmento Linha da Frente do dia 21 de Fevereiro, sobre a Comenda, concelho do Gavião, distrito de Portalegre. Passei a minha infância a ir àquele sítio. Teria muito, muito mais, a contar sobre. A reportagem sobre o tempo, o interior, o abandono, a riqueza; o interior é para fazer interiormente. Bravo pelo arquivo de imagem, fotografia e vídeo, que deve estar fabuloso, feito pelo escritor e médico Jorge Branco e seu filho, Ricardo Branco. Como diria o personagem Frank, em Little Miss Sunshine: Outstanding, soldier! Outstanding!
+ Linha da Frente, Ep. 8, T 21
+ Arquivo Digital e Imaterial da Comenda
+ Linha da Frente, Ep. 8, T 21
+ Arquivo Digital e Imaterial da Comenda
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dear television: goodbye,
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a
O País das Maravilhas (2014), Alice Rohrwacher.
A rtp2 e o serviço público, agora.
A rtp2 e o serviço público, agora.
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dear television: goodbye
lá longe (mapa astral)

Tal como os gatos têm sete vidas, diz-se, este sistema planetário tem sete planetas - e um outro sobresselente, vá, para o caso de. Porque sim. E porque posso.
Planeta Zero
Planeta Um
Planeta L
Planeta X
Planeta ML-3
Planeta VM-12
Planeta P11
Planeta A2 (ou Ariane)
lá longe (versão dia)

+ http://patriciaisabelricardo.com/la-longe
Neste seguimento, tínhamos a versão noite, agora temos também a versão dia.
> relicário

Ingrid Bergman durante a rodagem de Stromboli
Itália, 1949
© Gordon Parks
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relicário
diz-me o que sonhas, dir-te-ei quem sou
A noite passada, uma amiga sonhou comigo: tínhamos ido comprar um chuveiro para mim. Uma outra amiga também: andávamos a fotografar juntas.
Achei que devia registar isto.
Achei que devia registar isto.
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p.
parênteses
Neste momento, na rtp2, um breve documentário sobre a estalagem de Tawaraya, no coração de Quioto, no Japão.
Já sabem, não sou esquisita.
Já sabem, não sou esquisita.
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dear television: goodbye
> relicário

Polaroid from the set of Richard Kelly’s Donnie Darko, 2001
Jake Gyllenhaal, Jena Malone, and James Duval in a behind the scenes
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relicário
m
Se as Montanhas se Afastam (2015), Jia Zhang-ke.
A rtp2 e o serviço público, agora.
A rtp2 e o serviço público, agora.
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cinemateca,
dear television: goodbye
opá, ponto de exclamação, pt 2
A Zoo In My Wall
+ https://instagram.com/azooinmywall
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se eu fosse uma entrevista
(...)
Um físico terá sempre os pés na terra, é isso?
CF: Ninguém tira os pés da terra, a nossa imaginação é que o faz. E a imaginação é uma ferramenta poderosa dos cientistas, ainda que sempre com alguns limites, porque a nossa vida é a vida no planeta - somos daqui. Um físico faz quadros teóricos do mundo, imagina como é a natureza, muitas vezes sem a ver. A questão é se a natureza está de acordo com a nossa imaginação, ou melhor, se conseguimos ter a imaginação da natureza. E só os grandes génios o conseguem, como Einstein. Este ano celebramos o centenário da observação, em São Tomé e Príncipe, do eclipse que provou a validade da sua Teoria da Relatividade Geral. Esta tinha previsto, anos antes, que os raios do luz se curvavam ao passar perto do sol, o que era difícil de observar. Foi preciso esperar pelo fim da I Guerra para que uma expedição britânica - não alemã - comprovasse a teoria. Mas ele sabia que estava certo com base num critério que as pessoas não atribuem aos cientistas: a beleza. A teoria era bela e por isso estava certa.
Não parece ser um critério racional e objectivo.
CF: É o que, mais uma vez, une a arte à ciência. Ambas imaginam, ambas usam o critério da beleza para conduzir a imaginação. Com uma diferença: a referência do cientista será sempre o universo que habitamos. Ele exercerá a imaginação neste âmbito, observando, validando. O problema é que a natureza é sofisticada. Einstein dizia que "Deus é subtil, mas não é malicioso." Sendo ele judeu não praticante, este Deus não é do Antigo Testamento. É a harmonia cósmica, a beleza do mundo. Ao dizer que a teoria é bela e está certa, quis dizer que o mundo é harmónico. Que há um critério estético na procura da verdade.
Para um físico, a beleza equivale à harmonia?
CF: Sim, sim. A beleza é a justa proporção, mas não precisa de ser sempre exacta. Porque no seio da proporção tem de haver um elemento de estranheza. Os artistas sabem isso bem e estão sempre a introduzi-lo. E dessa forma estão a representar o mundo, que é feito de simetrias e quebras de simetria. O mundo não é todo ele proporção, é proporção e quebra dela.
O caos, outro conceito da Física.
CF: Pode-se perguntar: se os cientistas procuram a ordem, o que é isso da desordem? Será que a desordem lhes é estranha? A palavra 'gás' vem de 'caos'. No século XVII, os gases começaram a ser estudados e percebeu-se que havia átomos e moléculas - a hipótese atómica -, partículas que vagueavam irregularmente pelo espaço, chocando umas com as outras. Esta foi uma construção teórica depois confirmada - e hoje sabemos que os átomos existem, que aqui nesta sala há uma mistura de elementos, todos eles feitos de átomos. Dada essa irregularidade, foi criada a palavra 'gás', que vinha do grego kháos, que significa desordem e também espaço vazio primordial. Portanto, de certo modo, a Física tomou o caos como seu objeto de estudo. Nos anos 60, com o advento dos computadores, descobriu-se, nomeadamente na Meteorologia - que estuda a atmosfera, um sistema desordenado e imprevisível - que havia padrões, que havia alguma regularidade no caos. Que a desordem tem leis.
Feynmann experimentou o caos provocado pela morte. Nunca sentiu essa perda de razão, de chão?
CF: Quando se é confrontado com o mistério da morte, o vazio e o desamparo podem ser assustadores. E também tive a minha quota de perdas, de faltas. A minha morte também será falta para alguém. Porém, é uma coisa que não me preocupa muito. Acho que a vida consiste - e isto não tem nada de científico - em ignorar a morte, que a vida só pode ser plenamente vivida se não se pensar no fim. Ou seja, a vida é dom maravilhoso, e está cheia de aspectos não científicos. Se perguntar o que é o amor, a ciência não saberá responder.
E como responde a ciência ao conceito de Deus?
CF: A ciência tem a ver com o que pode ser experimentado e reconhecido coletivamente. O fenómeno religioso, que é prevalecente no mundo, resulta sempre de uma ligação individual àquilo a que podemos chamar de 'graça' ou transcendência. Não é algo que possa ser partilhado.
Mas pode explicar o mundo e concorre com a ciência nessa explicação.
CF: Mais do que uma explicação, diria que é uma aceitação. Porque para explicar é preciso saber. Se me perguntar o que existiu antes do início do mundo, dou-lhe a resposta que qualquer cientista dará: não sei. Alguém religioso dirá que existia Deus, mas então não está a explicar, está a aceitar uma convicção interior. O cientista não lida com a categoria de Deus. Veja o caso de Galileu, acusado pela Inquisição de desmentir a Bíblia, para a qual a Terra estava parada e o Sol girava à sua volta. Isto não passava do reconhecimento do senso comum. Galileu tinha razão, acreditava no Deus da Igreja Católica e não deixou de acreditar mesmo sendo julgado.
(...)
Está comovido. Quer partilhar a razão?
CF: Emociona-me a resistência do meu pai. A luta dele.
Herdou essa capacidade?
CF: Não sei, mas todos os dias faço por ter a força do meu pai.
É estranho perceber o que os nossos nossos pais foram antes de nós, o pouco que sabemos deles?
CF: Sim, mas temo-los em nós, e não apenas afectivamente. Temos os genes -, e agora vai falar o cientista. Queiramos ou não, somos um pouco os nossos pais. Não falei da minha mãe, era de uma aldeia próxima de Vidago, e eles encontraram-se em Lisboa, no Mercado da Ribeira, onde ela estava a vender. Casam-se e eu nasço. Ainda moraram ao pé da Igreja de São Paulo, num quarto, vivia-se em quartos, percebe? Por isso, para o meu pai, um filho era uma esperança. E eu gostava de ser a esperança que ele teve. Nas suas memórias, vê-se que projetava isso nos filhos.
Projetava o que teria gostado de ser?
CF: Vou-lhe contar uma pequena história, que não sei se é verdade. Parece que eu nasci forte, muito grande, na Maternidade Alfredo da Costa. E alguém disse ao meu pai, a brincar: "Que grande guarda que aqui está." Ele respondeu: "Há de ser mais qualquer coisa, se Deus quiser."
(...)
Já disse que, depois dos pais e dos professores, a maior ajuda foi a que procurou por si mesmo - nos livros.
CF: Há uma dimensão que os pais não nos conseguem dar. Foi com os meus professores que aprendi quem era Galileu e o que era a Física. E depois veio a terceira fase, a da autoaprendizagem, que foi a de maior liberdade. Os genes e a escola prendem-nos, cada um à sua maneira. Mas quando vou à procura de saber, eu escolho o que quero saber. Fui à procura da ciência por mim próprio. Achei que havia ali segredos do mundo que - não quero parecer presunçoso - estavam ao meu alcance. Que eu poderia fazer parte do esforço da Humanidade de saber mais sobre o mundo e sobre si mesma. Isso eu descobri através dos livros. Por isso tenho uma relação tão afetiva com eles.
Já se emocionou outra vez.
CF: É que os livros são a nossa vida eterna. E quero que os meus permaneceram vivos no sítio onde eu morri. Que estejam acessíveis a outras pessoas, que as ajude a ter o que eu tive.
Dar o que recebeu?
CF: Uma pessoa que recebe o que não dá, não merece o que lhe foi dado. Eu quero fazer por merecer o que me foi dado, e dar em dobro ou em triplo. Os livros têm uma semelhança com a magia que não é ciência. Fazem com que algo que se passou há muito tempo na cabeça de alguém tenha ressonância nos vivos. Falávamos da morte: os livros eliminam essa barreira, dão sentido à Humanidade. E dão sentido a uma coisa na qual acredito: que se pode ser melhor. Não quer dizer que o faça sempre, mas a Humanidade pode aprender com aquilo que fez.
Começou a conversa como um cientista, agora é um homem comovido. Costuma esconder esse lado?
CF: Controlo-o. Há coisas que me irritam e tento evitá-las - senão vivia sempre irritado. Mas o homem é um ser racional e emocional, e ambas as coisas estão ligadas. Emociona-me falar da minha história de vida, na parte em que me foi dada.
É saudoso?
CF: Não gosto de olhar para o passado, até porque acredito no fazer e, por isso, tenho de estar virado para a frente. O mundo é complicado, mas cada um pode tentar, no seu pequeno meio, ultrapassar o que viu os outros fazerem. Em ciência, o que está feito, está feito. Não se pode voltar atrás.
Mas na vida pode-se voltar atrás, ou não?
CF: É difícil. Nas relações entre as pessoas, mesmo quando se tenta curar uma ferida, a ferida já lá está. A minha mulher diz que sou demasiado racional, que estou sempre a aplicar um método, primeiro isto, depois aquilo. Tenho um cérebro condicionado pelo treino, que vai sempre procurar uma ordem. Não podemos escapar às emoções, mas a racionalidade ajuda-nos muito.
(...)
E onde está o lado cético, que associamos aos cientistas?
CF: O ceticismo sem otimismo não vai a lado nenhum - serve apenas para uma pessoa não acreditar em tudo. Carl Sagan dizia que somos a única parte do universo que consegue conhecer e que, se a espécie humana perecer, o universo perderá a sua consciência. Portanto, a nossa é uma missão cósmica. Somos a única parte do universo que sabe que veio do universo e que tem capacidade de o pensar.
(...)
De novo fala da beleza. Beleza como um atributo da Física.
CF: Mas as equações podem ser belas. Veja a teoria quântica, que aspira a ver a intimidade da matéria, aquilo de que tudo é feito. De início, ninguém a imaginou, foi imposta pela experiência. Max Plank, um físico alemão, percebeu que a emissão de luz não se podia explicar com a teoria vigente, e concluiu, pela matemática, que a luz é emitida em pacotes. Isto é estranho: porque é que a energia havia de vir aos pacotes? Ainda não se tinha a certeza dos átomos, mas pouco depois descobriu-se que esses pacotes eram emitidos por saltos, chamados quânticos, dos eletrões nas órbitas atómicas. E aí, já foi um físico teórico, Niels Bohr, que imaginou essas órbitas e viu que os saltos entre elas estavam de acordo com o que se conhecia. Por outras palavras, a teoria quântica foi imposta pela experiência, mas depois precisou de um salto da imaginação.
(...)
Mudamos o mundo ao observá-lo?
CF: Se estou a olhar para um aluno, ele não vai copiar. Se emito um raio de luz para ver um eletrão, este porta-se de maneira diferente do que se portaria se eu não estivesse a ver. Filosoficamente isto representa a separação - e a ligação - entre o homem e o cosmos. Se o mundo é o que é porque também resulta do nosso olhar, toda a discussão entre o subjectivo e o objectivo tem de ser reformulada. Esta é a Física que escolhi - mais mental do que manipulativa. Há colegas meus que agarram no mundo, o torturam e interrogam. Eu tenho uma atitude mais suave.
No entanto, comprou bastantes guerras. Detesta que se defenda que dois mais dois são cinco.
CF: Não é só que dois mais dois são quatro: uma parede é uma parede, e não há um hipopótamo dentro desta sala. Nesse livro do Orwell, "1984", a mentira está institucionalizada. E hoje vivemos num mundo estranho e perigoso, com uma grande massa de gente que recusa a nacionalidade. Os meios que os cientistas inventaram para comunicar e fazer mais ciência - a Worl Wide Web, criada por cientistas, para fazerem análise de dados em comum -, hoje servem para marcar encontros amorosos no Tinder, ou para eleger um Bolsonaro ou um Trump.
Isso preocupa-o?
CF: Preocupa-me viver num mundo que nega a realidade, em que muitos dos obstáculos à racionalidade são fomentados pelo uso de instrumentos que vêm da ciência. Voltando ao Carl Sagan, ele dizia que o mundo é um paradoxo: somos como somos graças ao poder da ciência e da tecnologia; e há tanta ignorância a este respeito que até se transforma em recusa.
Sagan chama a isso uma "receita para o desastre."
CF: Estamos a ver o desastre à nossa frente. Há quem contabilize o número de mentiras que o Trump diz, e cada vez são mais. Por isso ele é tão perigoso e por isso é que devemos ter medo.
Dependemos da ciência ao mesmo tempo que desconfiamos dela. Como se fosse um ato de magia.
CF: Não é, não. A nossa existência é explicada por leis científicas. Se estamos doentes, vamos ao médico. Ele condensa o melhor conhecimento possível sobre o funcionamento do nosso corpo - que já agora é parte do mundo, porque o corpo humano funciona de acordo com as leis da física e química.
A ignorância está a ganhar adeptos? Há quem a exiba como uma contracorrente.
CF: A ignorância é muito atrevida. Em vez de ser humilde, enche-se de orgulho. Qualquer um pode não saber, mas não querer saber é a pior forma de ignorância. Eu olho para essas pessoas com uma certa pena. Hoje, por exemplo, os testes genéticos podem levar-nos a tomar decisões de ordem clínica. Uma pessoa saudável pode tomar decisões com base na probabilidade genética.
(...)
E em relação aos saberes mais antigos, cujos princípios são diferentes dos da tradição ocidental?
CF: Ser antigo não quer dizer nada. Aristóteles é milenar, mas hoje sabemos que muitas das suas conclusões estão erradas. A física aristotélica foi derrubada por Galileu. Estas situações colocam-se no caso das medicinas tradicionais, e o primeiro engano é chamá-las 'medicinas'. Chamem-lhes terapêuticas, artes, o que quiserem. Não medicina.
Porquê?
CF: Pela mesma razão por que não chamamos astronomia à astrologia. Ou passa pelos critérios normais por que passa a medicina, ou não passa. Em Portugal, é permitido e legal vender produtos homeopáticos. Eles não têm de provar que são eficazes, mas que não fazem mal. Qualquer medicamento demora dez, vinte anos a provar a sua eficácia, mas a homeopatia, para vender, só tem de provar que não faz mal nenhum. Agora, porque é que deseja estar ligada à palavra 'medicina' e ter uma cédula certificada pelo Estado? Para obter validação profissional. E acha que o Estado deve certificar o engano?
(...)
A velhice não o preocupa?
CF: Nada. Há tantas coisas que me dão prazer, como ler, como comunicar.
É um bom ouvinte?
CF: Às vezes dizem-me que não ouço até ao fim. E reconheço que isso acontece, mas é porque sei o que me vão dizer. As pessoas repetem-se muito e eu sou um bocado impaciente.
Impacientou-se quando falávamos da pseudociência. Já devia saber o que lhe ia perguntar.
CF: Conheço os argumentos, e então quero despachar o assunto. Há coisas que para mim são muito óbvias, e outras que não o são, e eu quero perder tempo com as segundas. É uma escolha racional que faço com o meu tempo de vida, que é finito.
Consegue escolher uma só memória sua?
CF: Não costumo olhar muito para trás. Lembro-me de correr na Rosa dos Ventos, ali no Padrão dos Descobrimentos. Lembro-me como se fosse hoje do jardim ao pé dos Jerónimos, perto da minha casa, tinha eu 4, 5 anos. Lembro-me de ver o rio da minha janela, do primeiro dia na primeira classe. Chorei. As memórias são todas dos anos em Lisboa, da infância, e não há ali grandes traumas.
A linha temporal é reta, sem saltos.
CF: Fui uma criança feliz, acarinhada. Tive uma infância boa, com o mínimo e o máximo, tinha tudo aquilo que me podiam dar e que foi muito. Fiz sempre o melhor que pude nas circunstâncias que me foram oferecidas. Podia ter ido para medicina, mas fui para Física por livre escolha. O meu pai perguntou-me para que é que aquilo servia.
O que lhe respondeu?
CF: Respondi-lhe que não sabia. Mas aprendi que serve para muita coisa. Serve para dar uma entrevista ao Expresso, jornal que o meu pai lia. Nos últimos anos esteve num lar e o que ele mais gostava era que eu lhe levasse os jornais.
Voltamos a falar do pai. Volta-se sempre às origens?
CF: Somos quem somos porque alguém o decidiu. Fui o primeiro filho e cá estou, e os meus pais já não estão. Quando eu não estiver, tenho um filho de 24 anos, os meus genes estão com ele. E tenho também os livros, que são uma forma de deixar marcas. Sabe, eu acho que a memória do mundo anterior a mim foi-me muito útil. Deixar memórias não é um ato de vaidade.
Um físico terá sempre os pés na terra, é isso?
CF: Ninguém tira os pés da terra, a nossa imaginação é que o faz. E a imaginação é uma ferramenta poderosa dos cientistas, ainda que sempre com alguns limites, porque a nossa vida é a vida no planeta - somos daqui. Um físico faz quadros teóricos do mundo, imagina como é a natureza, muitas vezes sem a ver. A questão é se a natureza está de acordo com a nossa imaginação, ou melhor, se conseguimos ter a imaginação da natureza. E só os grandes génios o conseguem, como Einstein. Este ano celebramos o centenário da observação, em São Tomé e Príncipe, do eclipse que provou a validade da sua Teoria da Relatividade Geral. Esta tinha previsto, anos antes, que os raios do luz se curvavam ao passar perto do sol, o que era difícil de observar. Foi preciso esperar pelo fim da I Guerra para que uma expedição britânica - não alemã - comprovasse a teoria. Mas ele sabia que estava certo com base num critério que as pessoas não atribuem aos cientistas: a beleza. A teoria era bela e por isso estava certa.
Não parece ser um critério racional e objectivo.
CF: É o que, mais uma vez, une a arte à ciência. Ambas imaginam, ambas usam o critério da beleza para conduzir a imaginação. Com uma diferença: a referência do cientista será sempre o universo que habitamos. Ele exercerá a imaginação neste âmbito, observando, validando. O problema é que a natureza é sofisticada. Einstein dizia que "Deus é subtil, mas não é malicioso." Sendo ele judeu não praticante, este Deus não é do Antigo Testamento. É a harmonia cósmica, a beleza do mundo. Ao dizer que a teoria é bela e está certa, quis dizer que o mundo é harmónico. Que há um critério estético na procura da verdade.
Para um físico, a beleza equivale à harmonia?
CF: Sim, sim. A beleza é a justa proporção, mas não precisa de ser sempre exacta. Porque no seio da proporção tem de haver um elemento de estranheza. Os artistas sabem isso bem e estão sempre a introduzi-lo. E dessa forma estão a representar o mundo, que é feito de simetrias e quebras de simetria. O mundo não é todo ele proporção, é proporção e quebra dela.
O caos, outro conceito da Física.
CF: Pode-se perguntar: se os cientistas procuram a ordem, o que é isso da desordem? Será que a desordem lhes é estranha? A palavra 'gás' vem de 'caos'. No século XVII, os gases começaram a ser estudados e percebeu-se que havia átomos e moléculas - a hipótese atómica -, partículas que vagueavam irregularmente pelo espaço, chocando umas com as outras. Esta foi uma construção teórica depois confirmada - e hoje sabemos que os átomos existem, que aqui nesta sala há uma mistura de elementos, todos eles feitos de átomos. Dada essa irregularidade, foi criada a palavra 'gás', que vinha do grego kháos, que significa desordem e também espaço vazio primordial. Portanto, de certo modo, a Física tomou o caos como seu objeto de estudo. Nos anos 60, com o advento dos computadores, descobriu-se, nomeadamente na Meteorologia - que estuda a atmosfera, um sistema desordenado e imprevisível - que havia padrões, que havia alguma regularidade no caos. Que a desordem tem leis.
Feynmann experimentou o caos provocado pela morte. Nunca sentiu essa perda de razão, de chão?
CF: Quando se é confrontado com o mistério da morte, o vazio e o desamparo podem ser assustadores. E também tive a minha quota de perdas, de faltas. A minha morte também será falta para alguém. Porém, é uma coisa que não me preocupa muito. Acho que a vida consiste - e isto não tem nada de científico - em ignorar a morte, que a vida só pode ser plenamente vivida se não se pensar no fim. Ou seja, a vida é dom maravilhoso, e está cheia de aspectos não científicos. Se perguntar o que é o amor, a ciência não saberá responder.
E como responde a ciência ao conceito de Deus?
CF: A ciência tem a ver com o que pode ser experimentado e reconhecido coletivamente. O fenómeno religioso, que é prevalecente no mundo, resulta sempre de uma ligação individual àquilo a que podemos chamar de 'graça' ou transcendência. Não é algo que possa ser partilhado.
Mas pode explicar o mundo e concorre com a ciência nessa explicação.
CF: Mais do que uma explicação, diria que é uma aceitação. Porque para explicar é preciso saber. Se me perguntar o que existiu antes do início do mundo, dou-lhe a resposta que qualquer cientista dará: não sei. Alguém religioso dirá que existia Deus, mas então não está a explicar, está a aceitar uma convicção interior. O cientista não lida com a categoria de Deus. Veja o caso de Galileu, acusado pela Inquisição de desmentir a Bíblia, para a qual a Terra estava parada e o Sol girava à sua volta. Isto não passava do reconhecimento do senso comum. Galileu tinha razão, acreditava no Deus da Igreja Católica e não deixou de acreditar mesmo sendo julgado.
(...)
Está comovido. Quer partilhar a razão?
CF: Emociona-me a resistência do meu pai. A luta dele.
Herdou essa capacidade?
CF: Não sei, mas todos os dias faço por ter a força do meu pai.
É estranho perceber o que os nossos nossos pais foram antes de nós, o pouco que sabemos deles?
CF: Sim, mas temo-los em nós, e não apenas afectivamente. Temos os genes -, e agora vai falar o cientista. Queiramos ou não, somos um pouco os nossos pais. Não falei da minha mãe, era de uma aldeia próxima de Vidago, e eles encontraram-se em Lisboa, no Mercado da Ribeira, onde ela estava a vender. Casam-se e eu nasço. Ainda moraram ao pé da Igreja de São Paulo, num quarto, vivia-se em quartos, percebe? Por isso, para o meu pai, um filho era uma esperança. E eu gostava de ser a esperança que ele teve. Nas suas memórias, vê-se que projetava isso nos filhos.
Projetava o que teria gostado de ser?
CF: Vou-lhe contar uma pequena história, que não sei se é verdade. Parece que eu nasci forte, muito grande, na Maternidade Alfredo da Costa. E alguém disse ao meu pai, a brincar: "Que grande guarda que aqui está." Ele respondeu: "Há de ser mais qualquer coisa, se Deus quiser."
(...)
Já disse que, depois dos pais e dos professores, a maior ajuda foi a que procurou por si mesmo - nos livros.
CF: Há uma dimensão que os pais não nos conseguem dar. Foi com os meus professores que aprendi quem era Galileu e o que era a Física. E depois veio a terceira fase, a da autoaprendizagem, que foi a de maior liberdade. Os genes e a escola prendem-nos, cada um à sua maneira. Mas quando vou à procura de saber, eu escolho o que quero saber. Fui à procura da ciência por mim próprio. Achei que havia ali segredos do mundo que - não quero parecer presunçoso - estavam ao meu alcance. Que eu poderia fazer parte do esforço da Humanidade de saber mais sobre o mundo e sobre si mesma. Isso eu descobri através dos livros. Por isso tenho uma relação tão afetiva com eles.
Já se emocionou outra vez.
CF: É que os livros são a nossa vida eterna. E quero que os meus permaneceram vivos no sítio onde eu morri. Que estejam acessíveis a outras pessoas, que as ajude a ter o que eu tive.
Dar o que recebeu?
CF: Uma pessoa que recebe o que não dá, não merece o que lhe foi dado. Eu quero fazer por merecer o que me foi dado, e dar em dobro ou em triplo. Os livros têm uma semelhança com a magia que não é ciência. Fazem com que algo que se passou há muito tempo na cabeça de alguém tenha ressonância nos vivos. Falávamos da morte: os livros eliminam essa barreira, dão sentido à Humanidade. E dão sentido a uma coisa na qual acredito: que se pode ser melhor. Não quer dizer que o faça sempre, mas a Humanidade pode aprender com aquilo que fez.
Começou a conversa como um cientista, agora é um homem comovido. Costuma esconder esse lado?
CF: Controlo-o. Há coisas que me irritam e tento evitá-las - senão vivia sempre irritado. Mas o homem é um ser racional e emocional, e ambas as coisas estão ligadas. Emociona-me falar da minha história de vida, na parte em que me foi dada.
É saudoso?
CF: Não gosto de olhar para o passado, até porque acredito no fazer e, por isso, tenho de estar virado para a frente. O mundo é complicado, mas cada um pode tentar, no seu pequeno meio, ultrapassar o que viu os outros fazerem. Em ciência, o que está feito, está feito. Não se pode voltar atrás.
Mas na vida pode-se voltar atrás, ou não?
CF: É difícil. Nas relações entre as pessoas, mesmo quando se tenta curar uma ferida, a ferida já lá está. A minha mulher diz que sou demasiado racional, que estou sempre a aplicar um método, primeiro isto, depois aquilo. Tenho um cérebro condicionado pelo treino, que vai sempre procurar uma ordem. Não podemos escapar às emoções, mas a racionalidade ajuda-nos muito.
(...)
E onde está o lado cético, que associamos aos cientistas?
CF: O ceticismo sem otimismo não vai a lado nenhum - serve apenas para uma pessoa não acreditar em tudo. Carl Sagan dizia que somos a única parte do universo que consegue conhecer e que, se a espécie humana perecer, o universo perderá a sua consciência. Portanto, a nossa é uma missão cósmica. Somos a única parte do universo que sabe que veio do universo e que tem capacidade de o pensar.
(...)
De novo fala da beleza. Beleza como um atributo da Física.
CF: Mas as equações podem ser belas. Veja a teoria quântica, que aspira a ver a intimidade da matéria, aquilo de que tudo é feito. De início, ninguém a imaginou, foi imposta pela experiência. Max Plank, um físico alemão, percebeu que a emissão de luz não se podia explicar com a teoria vigente, e concluiu, pela matemática, que a luz é emitida em pacotes. Isto é estranho: porque é que a energia havia de vir aos pacotes? Ainda não se tinha a certeza dos átomos, mas pouco depois descobriu-se que esses pacotes eram emitidos por saltos, chamados quânticos, dos eletrões nas órbitas atómicas. E aí, já foi um físico teórico, Niels Bohr, que imaginou essas órbitas e viu que os saltos entre elas estavam de acordo com o que se conhecia. Por outras palavras, a teoria quântica foi imposta pela experiência, mas depois precisou de um salto da imaginação.
(...)
Mudamos o mundo ao observá-lo?
CF: Se estou a olhar para um aluno, ele não vai copiar. Se emito um raio de luz para ver um eletrão, este porta-se de maneira diferente do que se portaria se eu não estivesse a ver. Filosoficamente isto representa a separação - e a ligação - entre o homem e o cosmos. Se o mundo é o que é porque também resulta do nosso olhar, toda a discussão entre o subjectivo e o objectivo tem de ser reformulada. Esta é a Física que escolhi - mais mental do que manipulativa. Há colegas meus que agarram no mundo, o torturam e interrogam. Eu tenho uma atitude mais suave.
No entanto, comprou bastantes guerras. Detesta que se defenda que dois mais dois são cinco.
CF: Não é só que dois mais dois são quatro: uma parede é uma parede, e não há um hipopótamo dentro desta sala. Nesse livro do Orwell, "1984", a mentira está institucionalizada. E hoje vivemos num mundo estranho e perigoso, com uma grande massa de gente que recusa a nacionalidade. Os meios que os cientistas inventaram para comunicar e fazer mais ciência - a Worl Wide Web, criada por cientistas, para fazerem análise de dados em comum -, hoje servem para marcar encontros amorosos no Tinder, ou para eleger um Bolsonaro ou um Trump.
Isso preocupa-o?
CF: Preocupa-me viver num mundo que nega a realidade, em que muitos dos obstáculos à racionalidade são fomentados pelo uso de instrumentos que vêm da ciência. Voltando ao Carl Sagan, ele dizia que o mundo é um paradoxo: somos como somos graças ao poder da ciência e da tecnologia; e há tanta ignorância a este respeito que até se transforma em recusa.
Sagan chama a isso uma "receita para o desastre."
CF: Estamos a ver o desastre à nossa frente. Há quem contabilize o número de mentiras que o Trump diz, e cada vez são mais. Por isso ele é tão perigoso e por isso é que devemos ter medo.
Dependemos da ciência ao mesmo tempo que desconfiamos dela. Como se fosse um ato de magia.
CF: Não é, não. A nossa existência é explicada por leis científicas. Se estamos doentes, vamos ao médico. Ele condensa o melhor conhecimento possível sobre o funcionamento do nosso corpo - que já agora é parte do mundo, porque o corpo humano funciona de acordo com as leis da física e química.
A ignorância está a ganhar adeptos? Há quem a exiba como uma contracorrente.
CF: A ignorância é muito atrevida. Em vez de ser humilde, enche-se de orgulho. Qualquer um pode não saber, mas não querer saber é a pior forma de ignorância. Eu olho para essas pessoas com uma certa pena. Hoje, por exemplo, os testes genéticos podem levar-nos a tomar decisões de ordem clínica. Uma pessoa saudável pode tomar decisões com base na probabilidade genética.
(...)
E em relação aos saberes mais antigos, cujos princípios são diferentes dos da tradição ocidental?
CF: Ser antigo não quer dizer nada. Aristóteles é milenar, mas hoje sabemos que muitas das suas conclusões estão erradas. A física aristotélica foi derrubada por Galileu. Estas situações colocam-se no caso das medicinas tradicionais, e o primeiro engano é chamá-las 'medicinas'. Chamem-lhes terapêuticas, artes, o que quiserem. Não medicina.
Porquê?
CF: Pela mesma razão por que não chamamos astronomia à astrologia. Ou passa pelos critérios normais por que passa a medicina, ou não passa. Em Portugal, é permitido e legal vender produtos homeopáticos. Eles não têm de provar que são eficazes, mas que não fazem mal. Qualquer medicamento demora dez, vinte anos a provar a sua eficácia, mas a homeopatia, para vender, só tem de provar que não faz mal nenhum. Agora, porque é que deseja estar ligada à palavra 'medicina' e ter uma cédula certificada pelo Estado? Para obter validação profissional. E acha que o Estado deve certificar o engano?
(...)
A velhice não o preocupa?
CF: Nada. Há tantas coisas que me dão prazer, como ler, como comunicar.
É um bom ouvinte?
CF: Às vezes dizem-me que não ouço até ao fim. E reconheço que isso acontece, mas é porque sei o que me vão dizer. As pessoas repetem-se muito e eu sou um bocado impaciente.
Impacientou-se quando falávamos da pseudociência. Já devia saber o que lhe ia perguntar.
CF: Conheço os argumentos, e então quero despachar o assunto. Há coisas que para mim são muito óbvias, e outras que não o são, e eu quero perder tempo com as segundas. É uma escolha racional que faço com o meu tempo de vida, que é finito.
Consegue escolher uma só memória sua?
CF: Não costumo olhar muito para trás. Lembro-me de correr na Rosa dos Ventos, ali no Padrão dos Descobrimentos. Lembro-me como se fosse hoje do jardim ao pé dos Jerónimos, perto da minha casa, tinha eu 4, 5 anos. Lembro-me de ver o rio da minha janela, do primeiro dia na primeira classe. Chorei. As memórias são todas dos anos em Lisboa, da infância, e não há ali grandes traumas.
A linha temporal é reta, sem saltos.
CF: Fui uma criança feliz, acarinhada. Tive uma infância boa, com o mínimo e o máximo, tinha tudo aquilo que me podiam dar e que foi muito. Fiz sempre o melhor que pude nas circunstâncias que me foram oferecidas. Podia ter ido para medicina, mas fui para Física por livre escolha. O meu pai perguntou-me para que é que aquilo servia.
O que lhe respondeu?
CF: Respondi-lhe que não sabia. Mas aprendi que serve para muita coisa. Serve para dar uma entrevista ao Expresso, jornal que o meu pai lia. Nos últimos anos esteve num lar e o que ele mais gostava era que eu lhe levasse os jornais.
Voltamos a falar do pai. Volta-se sempre às origens?
CF: Somos quem somos porque alguém o decidiu. Fui o primeiro filho e cá estou, e os meus pais já não estão. Quando eu não estiver, tenho um filho de 24 anos, os meus genes estão com ele. E tenho também os livros, que são uma forma de deixar marcas. Sabe, eu acho que a memória do mundo anterior a mim foi-me muito útil. Deixar memórias não é um ato de vaidade.
Entrevista a Carlos Fiolhais, por Luciana Leiderfarb,
para a Revista Expresso de 9 (?) Fevereiro 2019
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isso, pt 2
(...)
Mas não. O professor conta-me que tinha andado na António Arroio e que tinha gostado muito, foram os melhores anos da sua vida. Conta-me que a seguir foi para a Faculdade de Belas Artes em Lisboa e que passou grande parte do tempo a fumar no pátio sem ir às aulas e só depois de dois anos percebeu que o seu grande sonho era ser arquitecto e mudou de turma. Conta-me que tinha as melhores notas e que mal terminou o curso começou logo a dar aulas ali na Escola dos Olivais número 3. De religião e moral. Que no princípio estava triste, não era bem o que ele queria mas que agora adora dar aulas. Eu levantei a cabeça sem me preocupar em lamber as lágrimas. Ele terminou a frase:
- Sabes, Helena, há muitas maneiras de construir prédios.
(...)
Mas não. O professor conta-me que tinha andado na António Arroio e que tinha gostado muito, foram os melhores anos da sua vida. Conta-me que a seguir foi para a Faculdade de Belas Artes em Lisboa e que passou grande parte do tempo a fumar no pátio sem ir às aulas e só depois de dois anos percebeu que o seu grande sonho era ser arquitecto e mudou de turma. Conta-me que tinha as melhores notas e que mal terminou o curso começou logo a dar aulas ali na Escola dos Olivais número 3. De religião e moral. Que no princípio estava triste, não era bem o que ele queria mas que agora adora dar aulas. Eu levantei a cabeça sem me preocupar em lamber as lágrimas. Ele terminou a frase:
- Sabes, Helena, há muitas maneiras de construir prédios.
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Patrícia Portela,
para o Jornal de Letras, Artes e Ideias de 16 a 29 Janeiro de 2019
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consideremos
Une minute de danse par jour*, de Nadia Vadori-Gauthier
+ http://uneminutededanseparjour.com/en/
*consideremos perdido aquele dia longo do qual não dançámos, pelo menos uma vez
Nietzsche
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*consideremos perdido aquele dia longo do qual não dançámos, pelo menos uma vez
Nietzsche
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também elas
(...)
Por vezes, cansados e confundidos, não conseguimos compreender que certas etapas cambaleantes nos servem para um reencontro benéfico com o nosso próprio passo. E podemos dizer que a alegria que provámos no caminho não passou de um relâmpago breve, que nos precipitou em seguida no escuro. Ou da esperança podemos pensar que só nos iluminou porque ignorávamos que também ela era transitória. E da leveza, da gentileza ou da amizade que podemos temer: chegará o outono e também elas voarão. Que injustiça, porém. O que vimos todo o tempo foi a vida a nascer.
Por vezes, cansados e confundidos, não conseguimos compreender que certas etapas cambaleantes nos servem para um reencontro benéfico com o nosso próprio passo. E podemos dizer que a alegria que provámos no caminho não passou de um relâmpago breve, que nos precipitou em seguida no escuro. Ou da esperança podemos pensar que só nos iluminou porque ignorávamos que também ela era transitória. E da leveza, da gentileza ou da amizade que podemos temer: chegará o outono e também elas voarão. Que injustiça, porém. O que vimos todo o tempo foi a vida a nascer.
José Tolentino Mendonça,
para a Revista Expresso de 5 de Janeiro de 2019
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