quinta-feira, 25 de abril de 2019

sempre



Estávamos nas aulas, e vimos a polícia por cima dos telhados. Depois não tivemos aulas o resto do dia.


Mãe




No dia estava a dormir, sei lá. Ah, de dia! Fomos à casa da PIDE, entrámos por lá adentro. Aquilo eram duas ou três salas, eles tinham-se ido embora.

(Fui preso duas vezes, uma delas fui parar à PIDE, outra fui parar à polícia. Foram coisas que já passaram.)

Depois é que começou tudo; nos dias seguintes criámos a comissão de estudantes e começámos a fazer reuniões gerais de alunos, as RGA, criámos uma direcção geral que mandou o reitor para a rua, deixou de ser director. Também mandámos professores embora, eu mandei muitos, um deles teve que ir para Macau. Esse, antes do 25 de Abril, no exame de Matemática, pôs-me a chorar baba e ranho e eu disse-lhe baixinho 'Meritíssimo Senhor Doutor', porque ele queria que o chamássemos assim, 'isto não cai em saco roto', e assim foi.

(No 1º de Maio andei com a bandeira, temos ali uma fotografia disso, não sei onde está guardada.)

Lá, andava tudo pianinho comigo, connosco. Dois contínuos que eram informadores da PIDE também foram para a rua. Depois quando passámos para o liceu novo é que passei a pasta a outros, já estava tudo orientado, a comida era boa... Eu aparecia lá de repente e ia provar a comida, se não fosse boa... Uma vez aumentaram os preços dos bolos, do pão, das bolemas - já nem me lembrava disto - e disse a toda a gente 'a partir de amanhã ninguém vai à cantina comer, isto não é para haver lucros, é para as pessoas comerem'. E se alguém não tivesse dinheiro, ainda podíamos dar seis ou sete sandes para quem não tivesse possibilidade. E não havia falta de respeito a professores, ou vice-versa, alguma coisa pegávamos no professor e no aluno e íamos com eles, púnhamo-los a conversar. Tínhamos normas e directivas e pautávamos-nos por aquilo; qualquer que fosse o partido, dentro do liceu, era tudo neutro, fora dali que fizessem o que quisessem. Às tantas já só ia a duas ou três aulas, não tinha tempo, mas pronto foi uma escola, aprendi muito.  O reitor aceitou a nossa opinião, mudou como pessoa; e ter ficado como professor teve ele muita sorte. Havia uma biblioteca que estava sempre fechada e nós começámos a abri-la; a pessoa levava um livro durante uma semana, se não o entregasse, pagava. Depois abrimos lá uma sala onde vendíamos sebentas e material, sempre sem lucro, e havendo, era para alguma coisa que faltasse. Passámos muitos Sábados a trabalhar. Depois começaram a aparecer professores mais novos, com maneiras diferentes de pensar, e os mais velhos mudaram - pediam-nos sempre autorização para fazer as coisas, andava tudo pianinho. Eu nunca decidia logo, dizia 'Oh Doutor, tenho que pôr à consideração das outras pessoas, eu não decido sozinho.' E pronto, foi assim. 


Pai