Desde quando sentiu necessidade desse isolamento?
GMT: Desde sempre que tenho a necessidade de ter um mundo próprio.
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Fico horrorizado, e ao mesmo tempo surpreendido, com as pessoas que conseguem estar sempre viradas para fora, para os outros, que conseguem ser só exterior. Sempre me pareceu que a sanidade mental do indivíduo depende muito desse tal mundo próprio que cada um tem. A vida é caótica, é perigosa, é dura, às vezes a pessoa está doente, às vezes tem um familiar doente, a morrer. Acho interessante que no meio dessa dureza alguém coleccione autocolantes, imagens de flores, não sendo eu coleccionador. Num olhar funcional pode dizer-se que é um disparate. A vida é urgente, a vida exterior é urgente, precisamos de agir. Mas por outro lado há um esconderijo, e é nesse mundo paralelo que a pessoa também vai construir a sua identidade. Se eu tiver um dia sempre virado para fora, nunca estando sozinho, sinto que o dia não existiu, o que é estranho. Por outro lado, sinto-me sugado na minha energia. Tenho uma necessidade desse silêncio, desse isolamento. Neste século XXI, e nas grandes cidades, deveriam ser direitos básicos o estar sozinho e em silêncio e o estar desligado. Parece que não há confiança na capacidade de resistir à própria tristeza, à melancolia, à nostalgia, ao aborrecimento.
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Aprendeu cedo a lidar com essa angústia?
GMT: A vida às vezes é complicada quando se está perto de pessoas doentes, quando nos obrigamos a pensar sobre sobre o que faz sentido. Um livro que me marcou muito, que li aos 18 anos, foi "Cartas a Lucílio", de Séneca. Hoje, só leio quase filosofia. Um filósofo não é aquele que sabe nomes e datas. É aquele que vive sabendo que vai morrer; e isso para mim é determinante e vem da leitura de Séneca. Há muita gente que vive como se fosse imortal, que não quer pensar na morte. A ideia de que vamos morrer não é tenebrosa. Dá sentido a tudo. Dá peso às decisões. Qual era a intensidade luminosa de uma vida imortal? Uma vida imortal não teria importância nenhuma. Séneca colocava essas questões: vamos morrer, e o que é que temos de fazer antes de morrer? A morte nivela as coisas, dá uma hierarquia. Um acontecimento menos bom, que nos deixa desorientados, quando comparado com a morte dá-nos o peso exacto das coisas. Quando penso "por enquanto estou vivo" é o confronto com a morte que dá alegria à vida.
Entrevista a Gonçalo M. Tavares, por Cristina Margato,
para a Revista Expresso de 6 Abril 2019