terça-feira, 31 de dezembro de 2019

2020

Sem resoluções.

Mentira.
. mudar a escova de dentes (de 6 em 6 meses)
. mudar a esponja do banho (de 6 em 6 meses)

domingo, 29 de dezembro de 2019

pois é

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.


em Escrito a Vermelho, de Albano Martins

[roubei ao Ricardo Mariano]

fernando lemos, pt 2



Fernando Lemos, artista maravilhoso

© Marcio Scavone

sábado, 28 de dezembro de 2019

fernando lemos

QUANDO UM DIA ESTIVER MORTO

Quando um dia estiver morto
não me chamem assim de morto
mas digam que fui um fraco
que lutei
Não digam que acabei
mas que estou iludido
Que fiz desertos com túmulos
praias geladas ao passear doentes

Digam que está ali comigo a cor
o ar e a posse
Que fui igual e traído
Que acordei dentro do vulcão
rompi manhãs de veludo
feito um rato
Que confundi papel com outro papel
Que troquei a mão de alguém
por outra mão
o sorriso por um desejo
a cerimónia por acto amoroso
Que troquei as horas por frases inocentes
e as rosas por actos gratuitos

Digam que cruzei mal as linhas
que rasguei papéis de valo
e soquei mulheres
Que amei os velhacos
fui traído com amor
raiva e convicção
Que perdi oportunidades
e das melhores
Que não conheci nem a lei
nem o cheiro do crime
Que abusei da minha força
na fraqueza dos outros
e da fraqueza também

Digam que fui ridículo
e até brilhante
Podem dizer que não roubei
nem fui culpado nas guerras

Quando morrer não digam

Não me chamem assim de morto



Fernando Lemos

compreendes?



(dentro de um livro em 2ª mão)

a girl's gotta do what a girl's gotta do

E pronto.

pequeno grande armazém

Tive saudades disto.
Não vale a pena contrariar, a vontade logo se orienta, pois é? É.

vermelha é a (própria) descoberta



Vermelho é a cor.
Vermelho é o coração.

https://instagram.com/patriciaisabelricardo/

domingo, 17 de novembro de 2019

queria muito fazer 33 anos para ser, finalmente, esta música



Obra-prima.
E acima de tudo: a verdade, nada mais que a verdade.


*During the taping of VH-1 Storytellers, Billy talked about the meaning of Thirty-Three when he said, The year was 1994 and I just moved into a new house that was eventually going to be a purple Victorian house in Chicago. And this is the first song that I wrote for that album. And um, this song really embodies the spirit of that time. I had just gotten married, I’d just moved into a new house, the band was achieving the kind of success that people only dream of and I was really hopeful with the idea that I was eventually and someday –and it looked like it was going to happen– actually have a happy life. It didn’t quite work out that way. But I don’t think that’s what I really want to emphasize about this particular song. Um, you know, hope is really the key component in life because one must have hope and faith to actually get out of bed and do anything in this world. And um, you know, in my mind at that time, I think I was 27 years old, I thought that I had arrived. I supposedly had everything one would want: the wife, the cat, the house, the car, and the money and the –oh yeah, the fame. And um, but I think what I’m really trying to say here is all I ever really wanted was a happy home.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

auto promoção, comiseração ou outro -ão qualquer

http://patriciaisabelricardo.com

o teatro dom roberto



O Teatro Dom Roberto, teatro de marionetas pelos Valdevinos.
Este espectáculo vai estar a sul do Tejo no próximo Domingo.

As fotografias são de Ricardo Reis.

[também podia viver aqui]

terça-feira, 12 de novembro de 2019

vinte e três e cinquenta e seis

Está um urso atrás de mim
Números pares são redondos
E a insónia ensina que nem sempre
Nem sempre, repito
O que queremos é o que mais
tememos
Porque temer é uma coisa
morrer por é outra.

o mundo em tempos de cólera

R.E.M. nunca esteve tão actual.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

sophia

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.

É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia a qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.

E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida
.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

bússola

A noite é de quem demora.

> relicário


Koen-dori, Japão, 1982

© Masahisa Fukase 

é

PREOCUPAÇÕES NATURAIS

Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.


José Miguel Silva


sábado, 2 de novembro de 2019

horácio, o pavão - e uma sucessão de eventos



(Também) na íntegra aqui:
http://patriciaisabelricardo.com/horacio-o-pavao-e-uma-sucessao-de-eventos

o mês de novembro começou assim

. Praia e Outono: um casamento feliz
. Papagaio ao vento - a felicidade
. Atobá-do-cabo
. Comida com muito amor
. Muito amor com comida
. Amor e comida: outro casamento feliz

domingo, 27 de outubro de 2019

*

afinal, a esperança

Tenho saudades de fotografar.

precariedade e dignidade

Cada vez que me deparo com a minha vida precária, que na verdade começa a acontecer algumas vezes por dia, apetece-me começar a correr toda nua pela rua abaixo. Dignidade? Hum, eventualmente.

sábado, 26 de outubro de 2019

é

simples.

onda



Watson’s sixth studio album is about having a wave knock you over when you realize everything you have in life can be wiped away in a moment – and then learning how not to drown in the process. During the making of the album, Patrick lost his mother, his longtime drummer left the group, and he and his partner separated. Watson brought a notebook underneath the waves and composed tunes about melancholy while listening to the lonely hymns of mermaids. The songs are about how sometimes you have to sing a love song to yourself when no one else will, allowing the sound carry you and learning to trust where you will land. It is very personal and intimate, and it is the most humble of all their records.

“It’s the difference between singing a solo at a stranger’s grave as a child and singing one at your own mother’s funeral.”

domingo, 20 de outubro de 2019

sábado, 19 de outubro de 2019

insípido



Ainda, mais ou menos.

http://insipidolevacento.blogspot.com

terça-feira, 15 de outubro de 2019

cosmos

E se o mundo for um bonito acaso?

sábado, 12 de outubro de 2019

a felicidade é

. Parque Interpretativo da Lagoa Pequena
. Casa da água de 1770, e o seu poço
. Pegadas da Pedra da Mua (sem sucesso, desta vez)
. Cabo Espichel
. O faroleiro do Cabo Espichel
. O farol do Cabo Espichel a funcionar com o sol a pôr-se e a lua cheia ao lado

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

domingo, 6 de outubro de 2019

jackpot

Já chegaste
Já cegaste
(também já achaste)

- o prémio agora é viver assim.

a minha vida numa acção

Sim, eu sou essa pessoa, à beira de uma nacional, à espera que os semáforos abram para passar a passadeira.

é isso

I don’t like myself very much, so i try not to observe myself too often. I made a documentary once entitled Talking Heads. I asked people two questions: “Who are you” and “What do you want?” Afterwards, I asked myself those questions. I realized that I didn’t have any answers. I don’t know who I am, and I don’t know what I want. If anything, I’d like some peace and quiet, but I’ve never achieved it, and I probably never will. So I will never have what I really want.

Krzysztof Kieslowski

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

dois

um

dedicatória

Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.
É um dia e uma janela.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

aprendamos isto de uma vez por todas

Há demónios que não são nossos.
De nada.

domingo, 29 de setembro de 2019

consagração

É pelos cantos que sobram passos.

nascer duas vezes

Caminhando sobre o fio da lâmina
forçoso é que desças ao sepulcro.
Mas se te inflama a ideia 
de seres duas vezes nascido
arma-te da lira
para enterneceres as sombras.

Natália Correia

greta thunberg e josé alves

Cientista arrasa a parte do estudo sobre impacto no habitat das aves 
Investigador entregou, por iniciativa própria, parecer que denuncia "ataque gritante" à conservação da avifauna em áreas protegidas e que terá consequências que vão além do estuário do Tejo 
Deficiente, desactualizado e, pior do que isso, minado de erros graves - esta é a conclusão de um cientista da Universidade de Aveiro sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do novo aeroporto do Montijo. José Alves, investigador especializado no estudo de aves que já publicou vários artigos científicos em revistas prestigiadas como a 'Nature' ou a 'Science', entregou no passado dia 18, quase no final do prazo de consulta pública, um detalhado e demolidor parecer sobre o projecto que acredita que deve ser inviabilizado. Segundo conclui, o EIA não faz uma avaliação actual nem correcta dos possíveis efeitos deste projecto nas aves que vivem (ou apenas passam) nas áreas protegidas (Reserva Natural do Estuário do Tejo e Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo). 
A avifauna é apenas uma das frentes avaliadas pelo EIA do Montijo. É o "anexo 6", nota José Alves, que assina o parecer que espera que sirva para que a Agência Portuguesa do Ambiente emita uma declaração desfavorável ao projecto. Os dados e conclusões do EIA sobre as aves baseiam-se numa mera "recolha de informação bibliográfica, muito dela desactualizada e não disponível para a vasta maioria das espécies", denuncia o investigador da Universidade de Aveiro.
Um exemplo: os dados de distribuição e abundância das aves nestes locais foram recolhidos há dez ou quinze anos e não foram sequer validados. As fontes de informação (e respectivas datas de recolha de dados) são expressamente assumidas no EIA, bem como ali se admite a falta de informação para muitas espécies ou sobre eventuais factores de perturbação.
Depois, prossegue o cientista, há ainda erros na aplicação do modelo de perturbação das aves (por ruído) à situação prevista para o aeroporto do Montijo. No EIA, a estimativa apoiou-se num estudo que analisou os efeitos de um ruído emitido durante três segundos, o que claramente não vai corresponder à realidade. Falta também prever os efeitos mais abrangentes das rotas dos aviões a descolar e a aterrar nas zonas de alimentação e refúgio. O resultado são estimativas "muito duvidosas e até erradas". No que se refere a medidas de compensação, o EIA refere apenas a possibilidade da "beneficiação de habitat em zonas de refúgio". É preciso muito mais do que isso, diz José Alves, sublinhando que o documento se limita a considerar (e com erros e falhas) duas ameaças à avifauna: a perturbação pelo ruído e a mortalidade por colisão de aeronaves.
A responsabilidade do rigor 
Temendo o pior, o cientista pede pelo menos que, "caso, ainda assim, o projecto avance", seja elaborado um estudo mais detalhado e rigoroso para a adopção de medidas de mitigação ou compensação que possam responder, de facto, aos estragos causados. "Uma avaliação inadequada resultará em medidas de mitigação ou compensação que ficam aquém do impacto real causado pelo projecto", avisa.
O parecer de José Alves, investigador no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro, não foi encomendado por ninguém. "Este parecer nasce da minha própria iniciativa como membro da sociedade civil preocupado com o sexto evento de extinção em massa que actualmente vivemos e que tem origem na acção humana. Mas também pela minha responsabilidade profissional como investigador sobre o rigor técnico-científico na área da ecologia e os efeitos de um projecto desta natureza para a conservação da biodiversidade", justifica.
O cientista estudas as aves migradoras há 15 anos do estuário do Tejo, mas também no Árctico e África Ocidental. "Um ataque tão gritante à sua conservação (consagrada na lei) não pode ser assente apenas em decisões políticas que se prendem com a ideia de que o crescimento económico justifica tudo." É possível e desejável fazer diferente neste caso, acredita José Alves. " É possível estimar de forma mais rigorosa os impactos", sublinha, apresentando no seu parecer vários dados actuais.
E as consequência, diz, prometem um longo alcance. "Mais do que a perda da biodiversidade local, como se trata de um estuário com grandes concentrações de aves migradoras, os impactos terão repercussão muito para além do estuário do Tejo e serão sentidos ao longo da rota migratória do Atlântico Leste, da qual este estuário é uma peça fundamental", diz o cientista. É que, explica, há muitas aves migradoras que se reproduzem no Norte do continente europeu e americano, incluindo no Árctico, que usam o estuário do Tejo como local de "invernada". E há outras ainda que migram até África Ocidental e que fazem do estuário do Tejo um ponto de abastecimento nas suas migrações. "Se esta peça do puzzle deixa de cumprir a sua função de 'porto de abrigo', estas aves correm o risco de não conseguir completar as suas migrações anuais, com potenciais implicações na dinâmica global desta espécies."
José Alves nunca viu nada assim. "Desconheço que exista um projecto desta envergadura no limite de uma área protegida e com impactes tão assinaláveis dentro de áreas protegidas a nível nacional e internacional." No entanto, admite que a tentativa não é inédita. "Conheço tentativas noutros países para a elaboração de projectos de grande dimensão com impactos previstos em espécies e/ou habitats com estatuto legal de protecção e que foram chumbados, prevalecendo a aplicação da lei."


Artigo de Andrea Cunha Freitas,
para o Jornal Público de 20 de Setembro 2019

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

para o bom e para o mau, uma frase feita

Sometimes things are exactly as they seem, that’s all.
Charles Bukowski

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

chama-se: coração

Escrevo muito sobre comboios.
Há uma explicação para isto.

domingo, 15 de setembro de 2019

etéreo

A terra treme quando o comboio passa
e se há coisas que não se explicam
são estas

- as que já não cabem sozinhas
por entre as mãos.