domingo, 19 de julho de 2020

grilo falante

Será que uma cegonha gostaria de ser outra coisa que não uma cegonha? Eu, se fosse eu, gostaria de ser uma cegonha. Uma chaminé antiga diz "indústria de chumbo". Eu mesma, um chumbo; um pesado e um ligeiro num acidente de viação ao qual mais ninguém assistiu se não eu. Há tanto tempo. A vida podia ser um mundo paralelo mas, de facto, não é. É um prédio em ebulição, uma chaleira em derrocada, o mar morto. Aos domingos o Lidl abre às 8h30 e fecha às 21h, e se eu fosse um domingo, entre o abrir e o fechar, só existia. Eu se fosse eu e nada mais do que ser eu. A existir. Abrir às 8h30, fechar às 21h, e no entretanto, deixar-me estar. A plataforma da estação está quente, todos sabemos que está quente, mas só alguns estão atentos ao intermédio que é estar-se e estar. É diferente, mas há tanta gente distraída.