terça-feira, 14 de julho de 2020

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Negros,
o resto é confusão e é eterno.

Los Negros foram a minha primeira banda, um sonho que fui concretizando com diferentes identidades e formas e com a ajuda de muitas pessoas bonitas. Também foi sempre uma banda difícil de descrever, ou etiquetar. Essa era a beleza do projecto. Tinha sede de ser livre, e a música para mim sempre me deu uma liberdade imensa. Acredito que os meus companheiros de viagem, os belíssimos e pacientes músicos que mergulharam comigo nesta aventura tinham a mesma sede e o mesmo desejo de ser criança e voar.

Acho que queríamos matar a fome da alma para podermos dormir de noite. Queríamos fazê-lo com as pessoas e para as pessoas. Entendê-las, alimentá-las, para depois as pôr a dormir e a sonhar. Apaixoná-las. Tomar-lhes a atenção. Queríamos comer e ser comidos.Queríamos comer e calar. Falar. Falar desta dor de barriga que tenho porque me separo das coisas e nem sempre as consigo acabar. Ouço os outros e o mundo e guardo cada som na pele como cicatrizes. Queríamos falar de como estamos tão longe de sermos felizes e por vezes tão perto que até acabávamos por tropeçar.
Não tínhamos nenhuma estratégia infalível. Essa era a estratégia: liberdade e confusão. O resto é eterno.

A banda acabou. Eu segui o meu caminho.
O João Catarino meu amigo de coração está agora a dar me este presente que são os vídeos que tanto inventámos e gravámos para os temas da banda, mas que por falta de recursos e organização nunca lançamos, nunca divulgámos.

O som gravado também nunca foi totalmente cuidado.
Já passou algum tempo desde o fim, mas continuamos a querer falar, e por isso aqui fica o primeiro vídeo: Explosão.

Gravado em Angola com as mais belas almas que conheci. Jovens actores fortes como leões do Grupo Globo Dikulu! Ia muitas vezes a Angola, ao Cazenga trabalhar com estes sonhadores, e eles aceitaram fazer parte deste vídeo.

Sara Ribeiro