quarta-feira, 25 de março de 2020

uma carta

Não é com grande sabedoria que vou escrever sobre, aliás, por esta altura escrever sobre o que quer que seja é, para mim, uma vitória. E também não sei do que falo, nunca; se alguma vez pareceu, não se iludam, é a fingir.

Têm sido dias de pura... procura. Já lá vamos.

Até há três dias atrás o pessimismo ainda não tinha chegado totalmente, tinha comigo um auto-controlo incrível, raro, que fez de mim mesma uma aliada. Não me permitia iludir, mas também não deslizava pelo buraco negro que, efectivamente, existe. No entanto, e sem surpresa, acabou o auto-controlo. Voltei a ser a minha própria inimiga, a amiga de sempre - velhas companheiras. Além do pessimismo, do buraco negro, de eu própria ser um problema, e de todas as metáforas e mecanismos que vá arranjando para o que estou a passar, começou a ser evidente a, nada mais nada menos: realidade.

Deparo-me agora, pelos quais já julgava ter passado, com os seguintes estados: desespero, impotência, desilusão, loucura, pânico, ansiedade, tristeza, silêncio, desamparo, mágoa, vitimização, desconsolo, solidão, impasse, confusão, revolta, inveja, amargura...
E não tenho sequer oportunidade de os perceber, para os libertar de seguida, porque acontece tudo, acontecem todos, em catadupa.

Aí, surge sem a ter accionado conscientemente, a procura - mais do que nunca, de mim mesma. E sem surpresa: não me encontro. Devo dizer que os meus meios de sobrevivência estão activos e é, na verdade, a única coisa a funcionar a pleno. Tentei explicar isto por palavras, mas não consigo. É impossível a exactidão. É impossível a coerência. É impossível a própria explicação.

Não sei como conseguirei permanecer viva depois disto, certa de que ilesa não sairei; e o legado que gostava de deixar não será o mesmo que, um dia, idealizei. Não há espaço para romantismo, gostava de ter uma mensagem de amor, mas a única coisa que tenho comigo é a impossibilidade do ser, que é por si só perigoso, e muitas vezes, nulo.