quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

> relicário



Agnès Varda with badges for both Jean-Luc Godard and François Truffaut.
Autor desconhecido.

*roubei ao mubi

tu sabes

Um poema à Adília Lopes.

As insónias,
as intrigas.
Intrusas,
tu sabes.

especial nada

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

j

Jakuchu - The Divine Colors (2016), Yuriko Kumagai e Chihiro Tajima.
A rtp2 e o serviço público, agora.

boa noite, marujos

Por falar nisso, patenteio já aqui a minha ideia de fotografar as quarenta e duas guardas de passagem de nível, ainda existentes, em Portugal.

Tenho dito.

há dias

Tenho que tirar o chapéu à rtp1, pelo segmento Linha da Frente do dia 21 de Fevereiro, sobre a Comenda, concelho do Gavião, distrito de Portalegre. Passei a minha infância a ir àquele sítio. Teria muito, muito mais, a contar sobre. A reportagem sobre o tempo, o interior, o abandono, a riqueza; o interior é para fazer interiormente. Bravo pelo arquivo de imagem, fotografia e vídeo, que deve estar fabuloso, feito pelo escritor e médico Jorge Branco e seu filho, Ricardo Branco. Como diria o personagem Frank, em Little Miss Sunshine: Outstanding, soldier! Outstanding!

Linha da Frente, Ep. 8, T 21
+ Arquivo Digital e Imaterial da Comenda

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

a

O País das Maravilhas (2014), Alice Rohrwacher.
A rtp2 e o serviço público, agora.

gaita de beiços



http://patriciaisabelricardo.com/gaita-de-beicos

seamus murphy

e PJ Harvey, A Grande.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

sim, pt 2



Hoje.

(b)arco

gaita de beiços



http://patriciaisabelricardo.com/gaita-de-beicos

lá longe (mapa astral)



Tal como os gatos têm sete vidas, diz-se, este sistema planetário tem sete planetas - e um outro sobresselente, vá, para o caso de. Porque sim. E porque posso.

Planeta Zero
Planeta Um
Planeta L
Planeta X
Planeta ML-3
Planeta VM-12
Planeta P11
Planeta A2 (ou Ariane)


sábado, 23 de fevereiro de 2019

sim



Hoje.

lá longe (versão dia)



http://patriciaisabelricardo.com/la-longe

Neste seguimento, tínhamos a versão noite, agora temos também a versão dia.

> relicário



Ingrid Bergman durante a rodagem de Stromboli
Itália, 1949

© Gordon Parks

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

incessante

Quero tudo
(para) meu bem, fecha a janela.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

diz-me o que sonhas, dir-te-ei quem sou

A noite passada, uma amiga sonhou comigo: tínhamos ido comprar um chuveiro para mim. Uma outra amiga também: andávamos a fotografar juntas.

Achei que devia registar isto.

j m

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

local

Local Lingual
https://localingual.com

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

parênteses

Neste momento, na rtp2, um breve documentário sobre a estalagem de Tawaraya, no coração de Quioto, no Japão.
Já sabem, não sou esquisita.

leis da física & outras questões

De Rerum Natura
http://dererummundi.blogspot.com


*obrigada à Inês

> relicário



Iceland, 2019
Lucrecia Martel and Björk

> relicário



Polaroid from the set of Richard Kelly’s Donnie Darko, 2001
Jake Gyllenhaal, Jena Malone, and James Duval in a behind the scenes

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

m

Se as Montanhas se Afastam (2015), Jia Zhang-ke.
A rtp2 e o serviço público, agora.

deixa chover

opá, ponto de exclamação, pt 2

A Zoo In My Wall
https://instagram.com/azooinmywall

domingo, 17 de fevereiro de 2019

> relicário



Untitled, 1962

© Tomi Ungerer

é



Hoje.

se eu fosse uma entrevista

(...)

Um físico terá sempre os pés na terra, é isso?

CF: Ninguém tira os pés da terra, a nossa imaginação é que o faz. E a imaginação é uma ferramenta poderosa dos cientistas, ainda que sempre com alguns limites, porque a nossa vida é a vida no planeta - somos daqui. Um físico faz quadros teóricos do mundo, imagina como é a natureza, muitas vezes sem a ver. A questão é se a natureza está de acordo com a nossa imaginação, ou melhor, se conseguimos ter a imaginação da natureza. E só os grandes génios o conseguem, como Einstein. Este ano celebramos o centenário da observação, em São Tomé e Príncipe, do eclipse que provou a validade da sua Teoria da Relatividade Geral. Esta tinha previsto, anos antes, que os raios do luz se curvavam ao passar perto do sol, o que era difícil de observar. Foi preciso esperar pelo fim da I Guerra para que uma expedição britânica - não alemã - comprovasse a teoria. Mas ele sabia que estava certo com base num critério que as pessoas não atribuem aos cientistas: a beleza. A teoria era bela e por isso estava certa.

Não parece ser um critério racional e objectivo.

CF: É o que, mais uma vez, une a arte à ciência. Ambas imaginam, ambas usam o critério da beleza para conduzir a imaginação. Com uma diferença: a referência do cientista será sempre o universo que habitamos. Ele exercerá a imaginação neste âmbito, observando, validando. O problema é que a natureza é sofisticada. Einstein dizia que "Deus é subtil, mas não é malicioso." Sendo ele judeu não praticante, este Deus não é do Antigo Testamento. É a harmonia cósmica, a beleza do mundo. Ao dizer que a teoria é bela e está certa, quis dizer que o mundo é harmónico. Que há um critério estético na procura da verdade.

Para um físico, a beleza equivale à harmonia?

CF: Sim, sim. A beleza é a justa proporção, mas não precisa de ser sempre exacta. Porque no seio da proporção tem de haver um elemento de estranheza. Os artistas sabem isso bem e estão sempre a introduzi-lo. E dessa forma estão a representar o mundo, que é feito de simetrias e quebras de simetria. O mundo não é todo ele proporção, é proporção e quebra dela.

O caos, outro conceito da Física.

CF: Pode-se perguntar: se os cientistas procuram a ordem, o que é isso da desordem? Será que a desordem lhes é estranha? A palavra 'gás' vem de 'caos'. No século XVII, os gases começaram a ser estudados e percebeu-se que havia átomos e moléculas - a hipótese atómica -, partículas que vagueavam irregularmente pelo espaço, chocando umas com as outras. Esta foi uma construção teórica depois confirmada - e hoje sabemos que os átomos existem, que aqui nesta sala há uma mistura de elementos, todos eles feitos de átomos. Dada essa irregularidade, foi criada a palavra 'gás', que vinha do grego kháos, que significa desordem e também espaço vazio primordial. Portanto, de certo modo, a Física tomou o caos como seu objeto de estudo. Nos anos 60, com o advento dos computadores, descobriu-se, nomeadamente na Meteorologia - que estuda a atmosfera, um sistema desordenado e imprevisível - que havia padrões, que havia alguma regularidade no caos. Que a desordem tem leis.

Feynmann experimentou o caos provocado pela morte. Nunca sentiu essa perda de razão, de chão?

CF: Quando se é confrontado com o mistério da morte, o vazio e o desamparo podem ser assustadores. E também tive a minha quota de perdas, de faltas. A minha morte também será falta para alguém. Porém, é uma coisa que não me preocupa muito. Acho que a vida consiste - e isto não tem nada de científico - em ignorar a morte, que a vida só pode ser plenamente vivida se não se pensar no fim. Ou seja, a vida é dom maravilhoso, e está cheia de aspectos não científicos. Se perguntar o que é o amor, a ciência não saberá responder.

E como responde a ciência ao conceito de Deus?

CF: A ciência tem a ver com o que pode ser experimentado e reconhecido coletivamente. O fenómeno religioso, que é prevalecente no mundo, resulta sempre de uma ligação individual àquilo a que podemos chamar de 'graça' ou transcendência. Não é algo que possa ser partilhado.

Mas pode explicar o mundo e concorre com a ciência nessa explicação.

CF: Mais do que uma explicação, diria que é uma aceitação. Porque para explicar é preciso saber. Se me perguntar o que existiu antes do início do mundo, dou-lhe a resposta que qualquer cientista dará: não sei. Alguém religioso dirá que existia Deus, mas então não está a explicar, está a aceitar uma convicção interior. O cientista não lida com a categoria de Deus. Veja o caso de Galileu, acusado pela Inquisição de desmentir a Bíblia, para a qual a Terra estava parada e o Sol girava à sua volta. Isto não passava do reconhecimento do senso comum. Galileu tinha razão, acreditava no Deus da Igreja Católica e não deixou de acreditar mesmo sendo julgado.

(...)

Está comovido. Quer partilhar a razão?

CF: Emociona-me a resistência do meu pai. A luta dele.

Herdou essa capacidade?

CF: Não sei, mas todos os dias faço por ter a força do meu pai.

É estranho perceber o que os nossos nossos pais foram antes de nós, o pouco que sabemos deles?

CF: Sim, mas temo-los em nós, e não apenas afectivamente. Temos os genes -, e agora vai falar o cientista. Queiramos ou não, somos um pouco os nossos pais. Não falei da minha mãe, era de uma aldeia próxima de Vidago, e eles encontraram-se em Lisboa, no Mercado da Ribeira, onde ela estava a vender. Casam-se e eu nasço. Ainda moraram ao pé da Igreja de São Paulo, num quarto, vivia-se em quartos, percebe? Por isso, para o meu pai, um filho era uma esperança. E eu gostava de ser a esperança que ele teve. Nas suas memórias, vê-se que projetava isso nos filhos.

Projetava o que teria gostado de ser?

CF: Vou-lhe contar uma pequena história, que não sei se é verdade. Parece que eu nasci forte, muito grande, na Maternidade Alfredo da Costa. E alguém disse ao meu pai, a brincar: "Que grande guarda que aqui está." Ele respondeu: "Há de ser mais qualquer coisa, se Deus quiser."

(...)

Já disse que, depois dos pais e dos professores, a maior ajuda foi a que procurou por si mesmo - nos livros.

CF: Há uma dimensão que os pais não nos conseguem dar. Foi com os meus professores que aprendi quem era Galileu e o que era a Física. E depois veio a terceira fase, a da autoaprendizagem, que foi a de maior liberdade. Os genes e a escola prendem-nos, cada um à sua maneira. Mas quando vou à procura de saber, eu escolho o que quero saber. Fui à procura da ciência por mim próprio. Achei que havia ali segredos do mundo que - não quero parecer presunçoso - estavam ao meu alcance. Que eu poderia fazer parte do esforço da Humanidade de saber mais sobre o mundo e sobre si mesma. Isso eu descobri através dos livros. Por isso tenho uma relação tão afetiva com eles.

Já se emocionou outra vez.

CF: É que os livros são a nossa vida eterna. E quero que os meus permaneceram vivos no sítio onde eu morri. Que estejam acessíveis a outras pessoas, que as ajude a ter o que eu tive.

Dar o que recebeu?

CF: Uma pessoa que recebe o que não dá, não merece o que lhe foi dado. Eu quero fazer por merecer o que me foi dado, e dar em dobro ou em triplo. Os livros têm uma semelhança com a magia que não é ciência. Fazem com que algo que se passou há muito tempo na cabeça de alguém tenha ressonância nos vivos. Falávamos da morte: os livros eliminam essa barreira, dão sentido à Humanidade. E dão sentido a uma coisa na qual acredito: que se pode ser melhor. Não quer dizer que o faça sempre, mas a Humanidade pode aprender com aquilo que fez.

Começou a conversa como um cientista, agora é um homem comovido. Costuma esconder esse lado?

CF: Controlo-o. Há coisas que me irritam e tento evitá-las - senão vivia sempre irritado. Mas o homem é um ser racional e emocional, e ambas as coisas estão ligadas. Emociona-me falar da minha história de vida, na parte em que me foi dada.

É saudoso?

CF: Não gosto de olhar para o passado, até porque acredito no fazer e, por isso, tenho de estar virado para a frente. O mundo é complicado, mas cada um pode tentar, no seu pequeno meio, ultrapassar o que viu os outros fazerem. Em ciência, o que está feito, está feito. Não se pode voltar atrás.

Mas na vida pode-se voltar atrás, ou não?

CF: É difícil. Nas relações entre as pessoas, mesmo quando se tenta curar uma ferida, a ferida já lá está. A minha mulher diz que sou demasiado racional, que estou sempre a aplicar um método, primeiro isto, depois aquilo. Tenho um cérebro condicionado pelo treino, que vai sempre procurar uma ordem. Não podemos escapar às emoções, mas a racionalidade ajuda-nos muito.

(...)

E onde está o lado cético, que associamos aos cientistas?

CF: O ceticismo sem otimismo não vai a lado nenhum - serve apenas para uma pessoa não acreditar em tudo. Carl Sagan dizia que somos a única parte do universo que consegue conhecer e que, se a espécie humana perecer, o universo perderá a sua consciência. Portanto, a nossa é uma missão cósmica. Somos a única parte do universo que sabe que veio do universo e que tem capacidade de o pensar.

(...)

De novo fala da beleza. Beleza como um atributo da Física.

CF: Mas as equações podem ser belas. Veja a teoria quântica, que aspira a ver a intimidade da matéria, aquilo de que tudo é feito. De início, ninguém a imaginou, foi imposta pela experiência. Max Plank, um físico alemão, percebeu que a emissão de luz não se podia explicar com a teoria vigente, e concluiu, pela matemática, que a luz é emitida em pacotes. Isto é estranho: porque é que a energia havia de vir aos pacotes? Ainda não se tinha a certeza dos átomos, mas pouco depois descobriu-se que esses pacotes eram emitidos por saltos, chamados quânticos, dos eletrões nas órbitas atómicas. E aí, já foi um físico teórico, Niels Bohr, que imaginou essas órbitas e viu que os saltos entre elas estavam de acordo com o que se conhecia. Por outras palavras, a teoria quântica foi imposta pela experiência, mas depois precisou de um salto da imaginação.

(...)

Mudamos o mundo ao observá-lo?

CF: Se estou a olhar para um aluno, ele não vai copiar. Se emito um raio de luz para ver um eletrão, este porta-se de maneira diferente do que se portaria se eu não estivesse a ver. Filosoficamente isto representa a separação - e a ligação - entre o homem e o cosmos. Se o mundo é o que é porque também resulta do nosso olhar, toda a discussão entre o subjectivo e o objectivo tem de ser reformulada. Esta é a Física que escolhi - mais mental do que manipulativa. Há colegas meus que agarram no mundo, o torturam e interrogam. Eu tenho uma atitude mais suave.

No entanto, comprou bastantes guerras. Detesta que se defenda que dois mais dois são cinco.

CF: Não é só que dois mais dois são quatro: uma parede é uma parede, e não há um hipopótamo dentro desta sala. Nesse livro do Orwell, "1984", a mentira está institucionalizada. E hoje vivemos num mundo estranho e perigoso, com uma grande massa de gente que recusa a nacionalidade. Os meios que os cientistas inventaram para comunicar e fazer mais ciência - a Worl Wide Web, criada por cientistas, para fazerem análise de dados em comum -, hoje servem para marcar encontros amorosos no Tinder, ou para eleger um Bolsonaro ou um Trump.

Isso preocupa-o?

CF: Preocupa-me viver num mundo que nega a realidade, em que muitos dos obstáculos à racionalidade são fomentados pelo uso de instrumentos que vêm da ciência. Voltando ao Carl Sagan, ele dizia que o mundo é um paradoxo: somos como somos graças ao poder da ciência e da tecnologia; e há tanta ignorância a este respeito que até se transforma em recusa.

Sagan chama a isso uma "receita para o desastre."

CF: Estamos a ver o desastre à nossa frente. Há quem contabilize o número de mentiras que o Trump diz, e cada vez são mais. Por isso ele é tão perigoso e por isso é que devemos ter medo.

Dependemos da ciência ao mesmo tempo que desconfiamos dela. Como se fosse um ato de magia.

CF: Não é, não. A nossa existência é explicada por leis científicas. Se estamos doentes, vamos ao médico. Ele condensa o melhor conhecimento possível sobre o funcionamento do nosso corpo - que já agora é parte do mundo, porque o corpo humano funciona de acordo com as leis da física e química.

A ignorância está a ganhar adeptos? Há quem a exiba como uma contracorrente.

CF: A ignorância é muito atrevida. Em vez de ser humilde, enche-se de orgulho. Qualquer um pode não saber, mas não querer saber é a pior forma de ignorância. Eu olho para essas pessoas com uma certa pena. Hoje, por exemplo, os testes genéticos podem levar-nos a tomar decisões de ordem clínica. Uma pessoa saudável pode tomar decisões com base na probabilidade genética.

(...)

E em relação aos saberes mais antigos, cujos princípios são diferentes dos da tradição ocidental?

CF: Ser antigo não quer dizer nada. Aristóteles é milenar, mas hoje sabemos que muitas das suas conclusões estão erradas. A física aristotélica foi derrubada por Galileu. Estas situações colocam-se no caso das medicinas tradicionais, e o primeiro engano é chamá-las 'medicinas'. Chamem-lhes terapêuticas, artes, o que quiserem. Não medicina.

Porquê?

CF: Pela mesma razão por que não chamamos astronomia à astrologia. Ou passa pelos critérios normais por que passa a medicina, ou não passa. Em Portugal, é permitido e legal vender produtos homeopáticos. Eles não têm de provar que são eficazes, mas que não fazem mal. Qualquer medicamento demora dez, vinte anos a provar a sua eficácia, mas a homeopatia, para vender, só tem de provar que não faz mal nenhum. Agora, porque é que deseja estar ligada à palavra 'medicina' e ter uma cédula certificada pelo Estado? Para obter validação profissional. E acha que o Estado deve certificar o engano?

(...)

A velhice não o preocupa?

CF: Nada. Há tantas coisas que me dão prazer, como ler, como comunicar.

É um bom ouvinte?

CF: Às vezes dizem-me que não ouço até ao fim. E reconheço que isso acontece, mas é porque sei o que me vão dizer. As pessoas repetem-se muito e eu sou um bocado impaciente.

Impacientou-se quando falávamos da pseudociência. Já devia saber o que lhe ia perguntar.

CF: Conheço os argumentos, e então quero despachar o assunto. Há coisas que para mim são muito óbvias, e outras que não o são, e eu quero perder tempo com as segundas. É uma escolha racional que faço com o meu tempo de vida, que é finito.

Consegue escolher uma só memória sua?

CF: Não costumo olhar muito para trás. Lembro-me de correr na Rosa dos Ventos, ali no Padrão dos Descobrimentos. Lembro-me como se fosse hoje do jardim ao pé dos Jerónimos, perto da minha casa, tinha eu 4, 5 anos. Lembro-me de ver o rio da minha janela, do primeiro dia na primeira classe. Chorei. As memórias são todas dos anos em Lisboa, da infância, e não há ali grandes traumas.

A linha temporal é reta, sem saltos.

CF: Fui uma criança feliz, acarinhada. Tive uma infância boa, com o mínimo e o máximo, tinha tudo aquilo que me podiam dar e que foi muito. Fiz sempre o melhor que pude nas circunstâncias que me foram oferecidas. Podia ter ido para medicina, mas fui para Física por livre escolha. O meu pai perguntou-me para que é que aquilo servia.

O que lhe respondeu?

CF: Respondi-lhe que não sabia. Mas aprendi que serve para muita coisa. Serve para dar uma entrevista ao Expresso, jornal que o meu pai lia. Nos últimos anos esteve num lar e o que ele mais gostava era que eu lhe levasse os jornais.

Voltamos a falar do pai. Volta-se sempre às origens?

CF: Somos quem somos porque alguém o decidiu. Fui o primeiro filho e cá estou, e os meus pais já não estão. Quando eu não estiver, tenho um filho de 24 anos, os meus genes estão com ele. E tenho também os livros, que são uma forma de deixar marcas. Sabe, eu acho que a memória do mundo anterior a mim foi-me muito útil. Deixar memórias não é um ato de vaidade.


Entrevista a Carlos Fiolhais, por Luciana Leiderfarb,
para a Revista Expresso de 9 (?) Fevereiro 2019

até já,

Bruno Ganz.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

> relicário



O juízo das andorinhas-do-mar
E.U.A., 2016

© Cig Harvey

isso, pt 2

(...)

Mas não. O professor conta-me que tinha andado na António Arroio e que tinha gostado muito, foram os melhores anos da sua vida. Conta-me que a seguir foi para a Faculdade de Belas Artes em Lisboa e que passou grande parte do tempo a fumar no pátio sem ir às aulas e só depois de dois anos percebeu que o seu grande sonho era ser arquitecto e mudou de turma. Conta-me que tinha as melhores notas e que mal terminou o curso começou logo a dar aulas ali na Escola dos Olivais número 3. De religião e moral. Que no princípio estava triste, não era bem o que ele queria mas que agora adora dar aulas. Eu levantei a cabeça sem me preocupar em lamber as lágrimas. Ele terminou a frase:
- Sabes, Helena, há muitas maneiras de construir prédios.

(...)

Patrícia Portela,
para o Jornal de Letras, Artes e Ideias de 16 a 29 Janeiro de 2019

consideremos

Une minute de danse par jour*, de Nadia Vadori-Gauthier
http://uneminutededanseparjour.com/en/


*consideremos perdido aquele dia longo do qual não dançámos, pelo menos uma vez
Nietzsche

também elas

(...)

Por vezes, cansados e confundidos, não conseguimos compreender que certas etapas cambaleantes nos servem para um reencontro benéfico com o nosso próprio passo. E podemos dizer que a alegria que provámos no caminho não passou de um relâmpago breve, que nos precipitou em seguida no escuro. Ou da esperança podemos pensar que só nos iluminou porque ignorávamos que também ela era transitória. E da leveza, da gentileza ou da amizade que podemos temer: chegará o outono e também elas voarão. Que injustiça, porém. O que vimos todo o tempo foi a vida a nascer.

José Tolentino Mendonça,
para a Revista Expresso de 5 de Janeiro de 2019

cortinas opacas

isso

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

a arte de, pt 2

And there I was, thirty-two years old, at a yoga retreat,desperatly trying to find myself, and realizing that everything I'd been doing in my life, artistically, could be summed up like this:
PLEASE BELIEVE ME. I'M REAL. NO REALLY, IT HAPPENED. IT HURT.

(...)

I laughed thinking about working in strip clubs during that same period, gyrating to Nick Cave and staring into the eyes of lonely, drunken strangers, challenging them to look into my soul instead of my crotch:
PLEASE. BELIEVE ME. I'M REAL.

(...)

I laughed thinking about every single artist I knew - every writer, every actor, every filmmaker, every crazed motherfucker who had decided to forgo a life of predictable income, upward mobility, and simple tax returns, and instead pursued a life in which they made their living trying to somehow turn their dot-connecting brains inside out and show the results to the world - and how, maybe, it all boiled down to one thing:
BELIEVE ME.
Believe me.
«I'm real.»

em The Art of Asking, de Amanda Palmer

a arte de

What I hadn't anticipated was the sudden, powerful encounters with people - especially lonely people who looked like they hadn't connected with anyone in ages. I was amazed by the intimate moments of prolonged  eye contact happening on the busy city sidewalk as traffic whizzed by, as sirens blared, as street vendors hawked their wares and activists thrust flyers at every passerby, as bedraggled transients tried to sell the local homeless community newspaper to rushing commuters... where more than a second or two of a direct, silent gaze between strangers is usually verboten.
My eyes woul say:
«Thank you. I see you.»

And their eyes would say:
«Nobody ever sees me.
Thank you.»

em The Art of Asking, de Amanda Palmer

há dias que dificilmente abalam muros*

Quão priviligiada, ter passado parte da infância por entre as realidades do Alentejo profundo, ter crescido ao lado do Rio Tejo e viver, actualmente, entre a Serra de Sintra e a Serra da Arrábida, planos de fundo todas as manhãs. Quão priviligiada? Muito. Tanto.

*e este cede tantas vezes

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

> relicário



Study of Perspective, 1995-2003

© Ai Weiwei

a mais tudo

enquanto pássaro (acho)

> amores

Patrícia Azevedo Godinho/ Respigar
https://instagram.com/respigar

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

quem é quem

you're the night, lilah / little girl lost in the woods



Esta música... Exacto.

sampladélicos



© Marta Sofia Nunes

Tudo começou há 6 anos, fizemos mais de 50 concertos, projectos de residência, um disco, fomos gravar para a Suíça, tocámos em festivais de música tradicional e de música electrónica, de folk e em congressos de gastronomia. Demos concertos com cozinheiros ao vivo, fizemos óperas no Teatro Dona Maria, tocámos em carroças e na rádio. Remisturámos muito e sempre evoluímos e mudámos. Fomos dispensados de duas plataformas de agenciamento, produção e nunca parámos. Somos só dois e sempre fizemos coisas paralelas. Hoje fazemos 6 anos, escreveu o Tiago Pereira sobre os Sampladélicos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

lá longe (versão noite)



http://patriciaisabelricardo.com/la-longe

querida agnès

Agnès Varda on examining her work for new doc and why awards make her uncomfortable
+ aqui

domingo, 10 de fevereiro de 2019

sábado, 9 de fevereiro de 2019

manuscrito

How is it over there?
How lonely is it?
Is it still glowing red at sunset?
Are the birds still singing on the way to the forest?
Can you receive the letter I dared not send?
Can I convey the confession I dared not make?
Will time pass and roses fade?
Now it’s time to say goodbye
Like the wind that lingers and then goes,
just like shadows
To promises that never came,
to the love sealed till the end.

To the grass kissing my weary ankles
And to the tiny footsteps following me
It’s time to say goodbye
Now as darkness falls
Will a candle be lit again?
Here I pray…
nobody shall cry…
and for you to know…
how deeply I loved you
The long wait in the middle of a hot summer day
An old path resembling my father’s face
Even the lonesome wild flower shyly turning away
How deeply I loved
How my heart fluttered at hearing faint song
I bless you
Before crossing the black river
With my soul’s last breath
I am beginning to dream…
a bright sunny morning…
again I awake blinded by the light…
and meet you…
standing by me.



Poema final de Poesia (2010), de Lee Chang-dong, escrito pelo próprio
(não sei de quem é a tradução)

o farol e os seus triângulos



Ser simples é um farol, é um posto e é onde o sol se põe e levanta, todos os dias - felizmente.

+ http://patriciaisabelricardo.com/o-farol-e-os-seus-triangulos

o farol e os seus triângulos



Ser simples é um farol, é um posto e é onde o sol se põe e levanta, todos os dias - felizmente.

#127



A sul, Fevereiro 2019

Estourei parte do salário numa lente nova e ia vender a antiga para que pudesse recuperar essa parcela; mas desisti (por agora), e achei que uma das fotografias ficou demasiado bonita para apagar. Ei-la.

#126



A sul, Fevereiro 2019

como uma fotografia

a de alice



Alice, teatro para bebés pelo teatromosca.
Inspirado em Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho de Lewis Carroll.
O espectáculo vai estar agora numa das margens certas do rio (são apenas duas margens, se é uma das, significa que são as duas carregadas de maravilhas, hum?)

O cenário foi criado por Pedro Silva.
As fotografias são de Catarina Lobo.

[também podia viver aqui para sempre, adoro]

p

Poesia (2010), Lee Chang-dong.
A rtp2 e o serviço público, agora.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

> relicário



Maria de Medeiros, 2008

© Adriano Miranda

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

sisyphus

I’m interested in the idea that our enemies are what make us whole—there’s an intimacy one shares with their opponent when locked in such a struggle. If we were to just walk away would our enemies miss us? How did we get to this point and how can we, through awareness of it, maybe pull ourselves out of this death spiral.

Andrew Bird

vai-se embora

É tudo. E é muito.

à rapariga fantasma

Se tivesse que lhe dizer alguma coisa seria
pedra mármore.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

isto não é um debate

note to self

Ontem adormeci com as corujas lá fora.
Nem tudo é mau, como bem sei.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

velho monte alentejano



Ontem depois de gravar em Santa Cruz, com o grupo coral, uma velhinha linda apareceu do nada e eu percebi que era a grande cantadeira da aldeia, mas estava doente. Pedi-lhe uma moda e cantou uma das tristes antigas, toda a gente em silêncio, como se fosse mesmo possível, que aquela fosse a última vez que cantasse. Foi um momento único e eu trouxe esse vídeo comigo não só nos cartões, mas na cabeça. O sol caia e o laranja na cara dela ia desaparecendo. Como se viesse ainda outra Aurora. O neto Fabio Luz comoveu-se e eu também com a sua comoção. O vídeo representa bem a força que aquele momento teve. Fábio é para ti, a tua avó, escreveu o Tiago Pereira.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

opá, ponto de exclamação

PUKACA | Paper Toys
https://pukaca.com

não me digas que

PASSAGEM DE PEÕES

À vinda do supermercado
diz-me o pequeno monstro
que às vezes me faz companhia:
«E qual é a tua razão de ser?»

Na rua, a tarde rola devagar
entre prédios murchos - e ele
acrescenta: «Não me digas que são os versos».

E ri-se.

em Morada, de Rui Pires Cabral

monstruário para breve

Um monstruário é sempre para breve.
E breve.

+ http://patriciaisabelricardo.com/monstruario-para-breve

monstruário para breve



Deste post...
Ei-lo.

+ http://patriciaisabelricardo.com/monstruario-para-breve

sábado, 2 de fevereiro de 2019

monstruário para breve



Deste post...
Ei-lo.

http://patriciaisabelricardo.com/monstruario-para-breve

monstruário para breve



Deste post...
Ei-lo.

http://patriciaisabelricardo.com/monstruario-para-breve

certidão

A minha certidão

Nasci aos 2 de Fevereiro, na Figueira da Foz. Tive infância caprichosa e bem nutrida, no seio de uma família fortemente dominada pelo espírito, chamemos-lhe assim, da 1ª República. Escusado será dizer que abundavam os dichotes anti-clericais, muito embora o meu pai desejasse que eu viesse a seguir a carreira eclesiástica. Em suma: não se percebia nada. Pelo menos à primeira vista. Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos. Tendo finalmente conseguido dissipar toda a fortuna na satisfação de brutais apetites, o meu garboso pai veio falecer vitimado por cruel ataque cardíaco, deixando-me, perplexo e sem um chavo, a coçar a cabeça. Era chegada a hora de dar o corpinho ao manifesto, como a maior parte das pessoas. Filho que era de meu pai, atravessei senhorialmente muitos e variados empregos, mas em breve me apercebi que já não podia olhar o mundo da mesma maneira. Fui até Paris para ensaiar até onde me era possível ir. Não em era possível ir muito longe. Meses depois, «ayant connu pas mal de choses», era repatriado.  Em 1960, encontrei o Sr. Seixas Santos que teve a bondade de me ensinar um pouco do muito que sabe de cinema. O Sr. Vasconcelos andava ao mesmo e parecia fazer progressos que, infelizmente (para ele), o futuro ainda não comprovou. No ano seguinte, trabalhei como assistente de realização do Sr. Perdigão Queiroga e admito que poderia ter aprendido mais qualquer coisinha se não tivesse sido tão presunçoso.Em 1963, na injusta qualidade de bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, parti para Londres e fim de frequentar a London School of Film Technique. Suponho que nunca por aquela escola passou aluno tão mau, mas nesse passo não tive grandes culpas no cartório: é que de facto os ingleses não nasceram para o cinema. Aliás, ainda não percebi muito bem para que é que os ingleses nasceram. Deve com certeza ser pela mesma razão que nasceram os percevejos, as baratas e o pão integral, vulgo pão que o diabo amassou. A estadia em Londres, essa foi extremamente divertida, sobretudo no salutar plano das doces amizades; contudo, no regresso à Pátria, o meu pavoroso aproveitamento escolar foi muito sentido, como vergonhosa acção, por provincianas carpideiras a quem nunca passará pelas cabeças, tão chorosas dos mal gastos dinheirinhos da Gulbenkian, que a estupidez e e incompetência assentam arraiais em qualquer parte do mundo, inclusive no coração de Londres, sob o pomposo nome de London School of Film Technique. Em 1965, conheci o Paulo Rocha e os seus VERDES ANOS, o Fernando Lopes e o seu BELARMINO. Tomei-me de amizade pelo Fernando e de amores pelo filme do senhor Rocha, cujos hábitos de anacoreta o tornavam pouco acessível.

Nesse mesmo ano, tentei pôr de pé um projecto de filme 16 m/m intitulado QUEM ESPERA POR SAPATOS DE DEFUNTO MORRE DESCALÇO. Dois dias de filmagens e rabinho entre as pernas. Falta de xis. Esse ano negro não findaria, no entanto, sem que deixasse a meio o primeiro filme publicitário que me enfiaram nas unhas: de como, graças ao Não-sei-quê, fazer desaparecer em três penadas o meu cheiro do sovaco, e me internassem num hospício para acalmar as febres.

De novo na vida civil, os meus excessos ultra-românticos, temperados pela mais nobre profundidade sentimental, tiveram enfim (ai filhas de Sidon) a justa consagração, o que não me livrou de amouchar durante um ano como escriba de Filmes Castello Lopes, Ldª.

Em 1968, após um reconfortante período em que descobri que mães há muitas e pai só um, o celeste, dei mostras de, para além do instinto de conservação, possuir muitos outros bons instintos, e fui finalmente recomendado ao produtor Ricardo Malheiro. Foi, pois, na mais desregrada euforia que fiz o filmezinho sobre Dona Sophia. Pouco tempo volvido (ó desgraça!), o Malheiro ia à falência ou, o que vinha a dar ao mesmo, a falência ia ao Malheiro. Sem grande proveito, tentei ainda a publicidade. Desesperadamente. Três ou quatro filmes, uma viagem, hélas! À guiné, e disse.

No ano seguinte, estimulado por algumas boas vontades (saudades), resolvi repegar no projecto «Quem espera por sapatos de defunto morre descalço», cujas filmagens se arrastaram ao longo de dois anos. Numa altura em que eu já deitava o filme pelos olhos, a Fundação Gulbenkian concedeu-me (obrigadinho) um subsídio de $$$$$$$$$$$$$$$$... 180 contos, divididos em 3 prestações. Aqui, tive a tentação de dar uma volta. Pedi ao Vasconcelos para filmar dois planos que faltavam ainda ao filme, e fui. Itália e a inevitável Paris. Esgotada a finança, voltei para acabar o filme, receber a última prestação e partir outra vez, ora de comboio, ora à boleia, consoante a inspiração: Barcelona, Marselha, Florença, Milão, Como, Cernobbio, Paris.

Entretanto, o filme começou por ser relativamente mal recebido junto do Mecenas (quereriam ópera por 180 contos?), continuou, pateado num festival no Sul de Espanha e foi friamente acolhido pelos críticos presentes em Nice, aquando da chamada Semaine du Jeune Cinèma Portugais. Foi pena, porque me teria dado jeito, sobretudo no que toca à fruição de algumas benesses locais, mas já que não pôde ser, paciência! Tirando isso, aproveitei a estadia niceoise para comprar um lindo fato de banho de duas peças com a nota de 100 francos que o João Bénard me emprestou e ameacei partir uma garrafa de tinto na cabeça do Cunha Teles que, impensadamente, me chamou oportunista. Não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário, mas ser insultado por um manhoso negociante é coisa que me põe fora de mim. Detesto a promiscuidade e ensinaram-me a guardar escrupulosamente as distâncias. Por uma única e bem simples exigência: a de manter intacta e intocada e minha pessoa, para além da consciência de todos os meus erros e imperfeições. Levo, as mais das vezes, esta fantochada com o riso no costado, mas não é por acaso que, cada vez mais, me dou com menos pessoas.

Arrumados definitivamente OS SAPATOS inicie, no verão passado, A SAGRADA FAMÍLIA, que espero terminar por estes dias. Presumo que não lhe estará reservada melhor sorte que a do filme anterior, mas devo confessar que a considero uma experiência relativamente importante, se não, e com certeza que não, no plano global de um cinema português, pelo menos no plano particular do meu próprio cinema, e na exacta medida em que, por um lado, discute e corrige dialecticamente o filme anterior e, por outro, prepara já o filme seguinte.

O filme chama-se A TEMPESTADE e será perpetrado numa Arrábida pintada a Robbialac se, como se espera, a edilidade local não levantar intransponíveis obstáculos. Quanto mais não seja, há que atender aos relevantes serviços que a prestimosa tinta, que é só a que mais pinta e que mais dura, tem prestado ao colorido da Nação.  Que pensar de tudo isto? Em primeiro lugar, que a vida está má para os pobres. Depois, que, nisto ou naquilo, vivemos todos muito ocupados, inclusive na falta de ocupação. Por último, que enquanto, pela parte que me toca, passo o tempo, como agora e aqui, a acariciar o meu dilatado egozinho e a fornecer de mim imagens razoavelmente aliciantes, como estas, existem pessoas bem mais obscuras que, discreta e devotamente, se vão ocupando de mim e do meu glorioso destino, o que, aliás, não é novo. Parece que tem sido uma constante da História.
Assim sendo, resta-me reconhecer a solidão moral de uma prática cinematográfica cavada na dupla recusa de ser uma espécie de carro de aluguer da classe exploradora, e, o que é mais grave, de trocar essa profunda exigência por toda e qualquer forma de demagogia neo-fadista que transporte e venda a miserável ilusão de servir, por abusiva procuração, interesses que não são os seus.



João César Monteiro
para a Revista &etc, nº 8, 30/IV/1973

com selo

não percebo o é que não percebes

Let it roll, let it crash down low
There's a house down there but I lost it long ago
Let it roll, let it crash down low
See my house down there but I lost it long ago
Lost it long ago

Na-na-na-na-na-na-na
Na-na-na-na-na-na
I'm letting it roll away
It's got nothing to do with fate
And everything to do with

*Andrew Bird

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

sobre suster a respiração

Ao que parece, o vento não mudou de direcção.

a p v