sábado, 20 de outubro de 2018

isso

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Não partilho da ansiedade que deteto em toda a gente a propósito de se ser demasiado bom.
- Como se a bondade implicasse uma perda de energia, de individualidade;
- nos homens, uma perda de virilidade.

«Os bons rapazes terminam em último.» Um ditado americano.

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E porque não queremos ser bons?

Mas para sermos bons, temos de ser mais simples. Mais simples, no sentido de um regresso às origens. Mais simples, no sentido de um imenso esquecimento.

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Compaixão. Legado de perda. As mulheres encontram-se para discorrer amargamente. Eu já me mostrei amarga.

E porque não queremos ser bons? O coração muda de opinião. (O coração, o sítio mais exótico de todos.)

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E parece-me ainda mais importante ir lá agora. Neste momento, a história mistura as minhas razões pessoais e individuais. Esmorece-as, substitui-as, aniquila-as. Graças aos esforços da maior figura histórica mundial desde o Napoleão. Não há que penar. A dor não é inevitável. Há que aplicar a ciência alegre do Mao: «Estejam unidos e alerta, mostrem-se sinceros e enérgicos» (idem, p.81).

O que quer dizer, «estejam alerta»? Cada pessoa intimamente alerta, evitando a modorra colectiva?
- Isso é tudo muito bonito, tirando o risco de acumular verdades a mais.
- Pensem nos prejuízos para o «estejam unidos».

O grau a que nos mostramos alerta corresponde ao grau a que nos revelamos preguiçosos, a que evitamos hábitos. Sejam vigilantes.

A verdade é simples, muito simples. Centrada. Mas as pessoas anseiam por outras formas de sustento que não apenas a verdade. As distorções privilegiadas desta, na filosofia e na literatura, por exemplo.

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Projecto para uma viagem à China, de Susan Sontag
Tradução de Vasco Telles de Menezes para a Revista LER (Agosto 2018)
[extracto de Histórias, de Susan Sontag]