domingo, 30 de setembro de 2018

teatro, um lugar de onde se vê

ELOGIO AO ACTOR 
Um dia - contaram-me durante uma edição do Festival de Almada - numa plateia de teatro improvisada num hospital psiquiátrico, no final de uma representação teatral, alguém do público levantou-se para tomar a palavra e disse que no final de contas um actor é como um fósforo: uma extremidade vermelha que se incendeia e se transforma numa pequena chama, que se consome no tempo que dura o espectáculo (ou seja, no pedaço de vida que vai do começo ao fim da representação teatral). 
Esse actor, esse fósforo que se acende e arde diante de nós, representa o coração do teatro - nesse momento confundido com o coração do actor. Um incêndio que logo o fio cortante da quotidianidade apaga, e depois vamos para casa. Sucede, por vezes, que esse incêndio prossegue dentro de nós, e fica ali a arder para sempre. 
Este livro é dedicado a todos os artistas, amadores uns e profissionais outros, que sobem ao palco para fazer de nós ali sentados e vermo-nos no espelho do teatro: o espaço vazio (como a vida quando nascemos) que eles (com palavras ou sem palavras), depois de terem repetido (ensaiado, portanto) o que têm para nos dizer, enchem de significado - representando por nós papéis de que nem sempre temos consciência e fazendo do teatro um incêndio para onde convergem todas as belas e feias artes: uma arte total.
Sarah Adamopoulos 


Em A Cidade do Teatro, livro publicado a 17 de Novembro de 2017, uma iniciativa de parceria entre Ninho de Víboras – Associação Cultural (um dos grupos de criadores almadenses) e a Câmara Municipal de Almada.