sábado, 15 de setembro de 2018

negrume

A noite cai. Da mesa onde escrevo vejo-a reunir as suas névoas, a princípio azuladas, depois cinzentas, finalmente escuras. Enche as profundezas da paisagem, alastra surdamente, como uma fumarada, prende-se na ramaria das árvores, que passam de esqueletos a fantasmas. A terra é nivelada pelo grande manto negro, abotoado à altura das colinas por um disco vermelho. O céu está ainda iluminado, mas vítreo - o olhar de um animal morto. Em volta da fenda em que o sol desaparece envenena-se de cores trágicas.

É sempre a esta hora que lanço mão deste caderno. Segundo o meu trabalho, tal-qual como outrora suspendia as brincadeiras. Fascinado pela solenidade do sol-pôr, sonhava ouvindo o tropear surdo dos cascos nas cavalariças, ou o relinchar de cria de égua erguendo-se do fundo da sombra húmida. Sentia-me à beira de um mistério. Que esperança, que temor, vindos de longe sobre uma asa nocturna e fria, me acariciavam à passagem?

em O deus nu, de Robert Margerit