domingo, 8 de abril de 2018

sonhei com esta passagem

O que há a fazer ao sonho é escondê-lo e recalcá-lo, para que nos deixem viver ignorados. Para que não o escarneçam. Para que os outros - os que não sonham - o não despedacem com uma alegria feroz. Sonhar é um crime. Há uma altura na vida em que é forçoso escolher - ou o sonho ou a vida prática. O grande golpe então é matar o sonho e adquirir o hábito das pequenas coisas. Há quem o estorcegue de repente a uma esquina; há quem leve mais tempo a liquidá-lo, misturando a vida prática com a vida quimérica, tentativa de que só resulta mais negro despeito. Creio que todos nasçam com um quinhão de sonho, e que, mesmo nos que conseguem aniquilá-lo, há horas em que fixam o olhar num ponto dourado; e em que voltam a cabeça com saudade... Mas é tarde; a labareda está reduzida a cinzas... Talvez por isso mesmo odeiem secretamente os outros, os que sonham sempre, os que sonham até à velhice, com um ar extravagante de lunáticos, não dando a mínima importância às coisas da vida consideradas importantes. Pobres e ridículos sonham, e é esse o seu quinhão, melhor ou pior. Os homens práticos pouco a pouco caem no sorvedouro que os traga e leva como sombras inúteis enquanto a caravana dos desgraçados lá segue o seu rumo à parte, de olhar estático, desprezada e secretamente invejada, sob os gritos de maldição.

em A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, de Raul Brandão