domingo, 11 de fevereiro de 2018

sorrindo com as semelhanças

Sentimentos como por exemplo...

AMC: A alegria intacta, o desgosto que guardo até hoje por sentir um passarinho morrer-me na mão, o medo, o pavor de, de repente, me encontrar sozinha numa das divisões naquela casa enorme, de ouvir ruídos a meio da noite, de chorar imenso, numa angústia fatal, mal se começava a instalar a noite e o silêncio cheios de barulhos indecifráveis, de me apavorar com os homens bêbados das tabernas, de esconder a cabeça na saia da minha avó, desgostosa, por seu sair assim, um bicho do mato. E, claro, das batalhas, literalmente campais, com os miúdos da terra que nos arremessavam pedras, sem dó nem piedade, e nós, desajeitados e patetinhas, tentávamos ripostar, mas eles ganhavam sempre.

(...)

Afastada do jornalismo, como se tem dado com a vida só de escritora, com tudo o que implica hoje de festivais literários, encontros com leitores, 'eventos' vários, muitas viagens?

AMC: (...) O contacto com leitores, por vezes remotos, alguns com interpretações e leituras dos meus livros bem melhores do que aquelas em que pensei, é das experiências mais gratas. Ás vezes, chegam em forma de textos, sempre muito generosos, até comoventes. Por exemplo, outro dia o pintor Américo Prata bateu-me à porta para me oferecer um quadro, com uma personagem do meu livro pintada. Está na parede da minha sala.

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Entrevista a Ana Margarida de Carvalho, por Miguel Real,
para o Jornal de Letras de 6 de Dezembro de 2017