domingo, 14 de janeiro de 2018

a fruição do espanto

A capacidade de espanto que o real nos oferece (estou a pensar em Vermeer) vem directamente da sua imponente irrealidade, do seu quotidiano tornado inexplicavelmente desconhecido: mágico? Desconhecido mistério, magia (lanço estas pedras ao acaso das palavras): eis a força de pasmo da realidade.

Ver o que é próprio do pintor.

Há duas famílias de fazedores de imagens: aquela para a qual ver é sobretudo ver alguma coisa - alguma coisa atordoadora, diria Dalí; e aquela para a qual ver é ver - andar à voltas com a sua pequena sensação, diria Cézanne. Este ver coloca-se num domínio situado fora da palavra (anterior à palavra?) em que o representado, se existe, se apresenta como logro da vista, como revestimento, como o escrínio do que é mostrado.


em Temas e Variações: parte escrita 3, de Júlio Pomar